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Transporte Sentimental



Domingo, 19.05.13

os meninos de palhavã foram reconhecidos nas caldas da rainha

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«A redenção das águas» de Carlos Querido
Com o subtítulo de «As peregrinações de D. João V à vila das Caldas», este
é o terceiro volume publicado de Carlos Querido (n. 1956) depois de «Salir
d´Outrora» (2007) e de «Praça da Fruta» (2009). As 219 páginas não
registam apenas as viagens de D. João V à vila das Caldas para alívio do
seu sofrimento entre 1742 e 1750. O livro tem esse pano de fundo real («não
haverá maior solidão do que o poder absoluto»)mas existe nele um a espécie
de filtro no olhar dos narradores – Pedro e Sara.
Pedro, filho de um fidalgo e de uma lavadeira, nasceu nas Caldas, foi para
Lisboa e daí partiu para o centro da Europa com o infante D. Manuel, o
irmão do rei D. João V: «Chamo-me Pedro e nasci nas Águas Santas, muito
próximo daqui. Fui ferido na batalha de Timisoara.» Por sua vez Sara é
filha do rei D. João V e de uma criada do Paço: «O meu avô materno estudou
em Coimbra onde tomou ordens mas pediu dispensa quando descobriu que era
mais forte o chamamento do mar.» Pedro («Sou um homem comum») conta a
verdade («leia com paciência; os factos são verdadeiros») mas para Sara
(«Com a minha mãe aprendi piano, recato e solidão») a dura verdade é o rei
só reconhecer como filhos os meninos de Palhavã: D. António, D. Gaspar e D.
José. Não as filhas.
As viagens do rei D. João V são neste livro um pretexto feliz para o autor
nos fazer viajar pelo país que somos: «Cresce na cidade e no reino um vago
sentimento de tristeza e desolação. Há militares a quem não é pago o soldo.
Há operários ao serviço do rei que não recebem o salário devido, para
desespero das famílias». Sem esquecer o Povo que o habita: «Somos um povo
com uma alma religiosa mas sensível e compreensiva perante a tentação da
luxúria.». Nem o rei que o governa (37 anos de pacífico reinado) entre
birras com o Vaticano («gastou 500 mil cruzados na compra do direito a
tomar a hóstia pela sua mão») e as malhas da Inquisição («ao serviço do rei
e não ao serviço de Deus») a quem o narrador não hesita em definir como
«fanáticos que querem travar o movimento do mundo, incluindo a rotação em
volta do Sol».
Tudo termina na vila das Caldas, no lugar onde nasce a narrativa: «Começou
por ser lugar de destino dos deserdados mas as suas águas também curam os
poderosos do reino.» Caldas, outro nome para o paraíso perdido, «esse lugar
onde o mundo parece fazer sentido, porque não se avista nem se sente a
loucura dos homens».
(Editora: Arranha-céus, Capa: Elisabete Gomes, Revisão: Raul Henriques,
Apoio: Câmara Municipal de Caldas da Rainha)
José do Carmo Francisco
--

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por José do Carmo Francisco às 16:56


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