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Transporte Sentimental



Sábado, 31.12.16

júlio césar machado - as ventanias de dezembro

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Gostaria de convocar uma crónica de Júlio César Machado (1835-1890) porque estamos (no momento em que escrevo) em pleno tempo de Natal e porque o livro «Lisboa na rua» (Editora Frenesi) inclui uma excelente crónica deste autor na qual mistura de modo hábil e feliz o estilo da escrita com o sangue pisado da vida. Vejamos: «Há uma só coisa mais triste ainda do que uma gaiola sem pássaros e uma casa sem crianças: é uma criança sem mãe! Não é preciso ser órfão para compreender bem toda a amargura do destino dos que o são. Nós, todos, algumas vez, temos tido na vida a hora inconsolável de estarmos longe dos nosso e pesar-nos na alma a saudade da família – é calcular, por essa hora passageira, o que será o sempre! Quando depois da morte de meu pai em 1852, me determinei a não ir para a aldeia, onde minha mãe tem a sua casa, e ficar sozinho aqui a aprender o ofício das letras, ia a entrar o Inverno. As ventanias de Dezembro açoitavam as vidraças da janela do quarto onde eu morava. Estava pobre: sem pai, longe, muito longe da minha mãe; tinha dezasseis anos; rompera abertamente com A Dos Ruivos, o que equivalia a quebrar o passado e querer edificar o futuro no presente que me estremecia e estalava debaixo dos pés… Chegou a noite de Natal. Ouvi os sinos a chamarem para a missa do galo; vi da janela as ruas cheias de povo, que girava dum lado e do outro, muito contente, com os seus papeluchos de broas debaixo do braço… E como era a primeira vez que aquela noite, que sempre me fora alegre, me encontrava triste e só, sentado à mesa de trabalho com os livros por únicos amigos e únicos companheiros, conheci com que tristeza devem sentir-se neste mundo os que entram órfãos na vida…» Pode parecer extensa a citação mas vale a pena, trata-se de um texto de grande escritor. --

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por José do Carmo Francisco às 13:22

Sábado, 31.12.16

»alimentam toda esta região de leiria a santarém»

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No livro «Os pescadores» de Raul Brandão (1867-1930) há duas palavras hoje pouco usadas: uma é paleco (trabalhador assalariado) e a outra é presigo (conduto). Feita esta advertência aqui fica a transcrição do belíssimo texto sobre as mulheres da Nazaré: «São elas que alimentam toda esta região de Leiria a Santarém e que levam ao lavrador, ao paleco como lhe chamam, e ao jornaleiro enfastiado de pão seco o mantimento, o presigo saboroso. Com azeitonas, uma caneca de carrascão negro e espesso como tinta e três sardinhas, já a vida toma outro aspecto para o homem calcinado e farto de remover a terra. São elas que toda a noite, quando se pesca toda a noite, separam o peixe, o amanham, o secam no tendal e o levam para os armazéns de salga. E pela manhã põem-se a caminho para as Caldas (20 km) ou para Alcobaça (12 km) com o peso de duas ou três arrobas à cabeça. Infatigáveis. Em tempos chegavam a ir a Santarém, acompanhando o burro com a carga e trotando ao lado da alimária. Apregoam pelos casais dispersos e deitam a um canto os maiores e mais espertos negociantes desta terra. À noite dormem – se não há peixe na praia. Se há, partem outra vez com a canastra à cabeça e um pedaço de pão no bolso para o caminho. E o tempo ainda lhes sobra para cuidar dos filhos e para trazer a casa limpa e esteirada. Nenhum pescador vive como o da Nazaré: pode-se comer no chão.» Mais à frente, Raul Brandão conclui: «Tive sempre a ideia que quem manda em todo o país é a mulher. Valem mais que o homem, sacrificam-se mais que o homem – mas aqui o seu trabalho é tão palpável que toda a gente afirma que a mulher da Nazaré é a alma desta terra.» Nota fina – esteirada quer dizer atapetada. Foi longa a transcrição mas valeu a pena. Raul Brandão é um grande escritor. --

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por José do Carmo Francisco às 11:54

Sábado, 31.12.16

leonoreta leitão - «era uma vez uma boina» em alcanena

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O livro de memórias tem o título de «Era uma vez uma boina» (Edições Colibri) e das suas 286 páginas dou destaque às que se referem a Alcanena nas palavras da sua autora - Leonoreta Leitão. Na página 12 a propósito de um estudo psicológico do Prof. Delfim Santos (teste da árvore) lê-se o seguinte: «Só em Alcanena me apercebi dessas minhas qualidades («pés bem assentes na terra») quando me achei perante uma escola do Ciclo Preparatório e com determinação consegui que ela viesse a ser uma Escola Técnica.» Na página 91 leio: «A minha Escola é um edifício camarário que não foi feito para tal. Foi o presidente da Câmara que solicitou à Direcção Geral do Ensino Técnico a criação daquela secção para os alunos que não têm condições económicas para se deslocarem a Torres Novas, Neste momento não tenho carteiras nem quadros nem secretárias… Vou preparando aquilo que posso: os horários, umas instruções… Eu sou nomeada subdirectora de Tores Novas para dirigir a secção de Alcanena. Tenho independência pedagógica mas dependência administrativa. O Ministério informa-me que vai chegar mobiliário. Por isso vou à escola. Aí uma desagradável surpresa me esperava: os pais queriam saber o que se passa. Todos se mostram apreensivos e eu dou as explicações necessárias. Até que um certo homem se adianta, de aspecto rude e procura agredir-me com uma pedra. Os outros advertem-no com dureza e a situação é ultrapassada. Mais tarde uma dessas mulheres dirá: «Nós lá nas Moitas estamos todos muito incomodados com aquele que foi incorrecto com a senhora. Ele devia estar com os copos…» Na página 263 lá vem a decisão da Câmara Municipal de Alcanena: «Atribuir à Doutora Leonoreta Leitão a medalha de prata de Mérito Municipal». --

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por José do Carmo Francisco às 11:04


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