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Transporte Sentimental



Quinta-feira, 21.04.16

o assinante 186 - dua sou três coisas sobre luiz pacheco

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Sou o assinante nº 186 no ficheiro de Luiz Pacheco num país com dez milhões de habitantes; quer dizer alguma coisa. Portugal não é um país de brandos costumes nem de poetas; a maior percentagem é de analfabetos. O país real passa ao lado destas coisas: livros, poemas,crónicas, romances, artes e letras em geral. Conheci Luiz Pacheco em 1967 na Parceria A.M. Pereira na Rua Augusta em Lisboa e comprei-lhe os «Textos locais» por 7$50. A tertúlia era informal, funcionava à hora de almoço e integrava Romeu Correia, José Palla e Carmo, Ruben A., Natália Correia e Luiz Pacheco, quando calhava. Eu tinha 16 anos e estava ali apenas para ouvir. Pacheco tinha 42 anos e já era aceite pelos seus pares com toda a naturalidade. A distância era grande. Mais tarde, anos 80, vim a encontrar Pacheco com Herberto Helder e Mello e Castro; Ele recebia do dono da pastelaria «Mourisca» colchões, lençóis e cobertores para a casa de Massamá. Herberto Helder revia provas do seu novo livro «As magias» e pedia-me «Divulgue nos jornais que eu deixei de escrever». Outras vezes encontrava Pacheco nos eléctricos 29 e 30 a caminho do Príncipe Real, sempre sem pagar bilhete perante a indiferença do revisor. Mais tarde entrevistei duas vezes Pacheco em Palmela para «O Mirante» e visitei-o no Montijo e na Liga dos Amigos dos Hospitais no Príncipe Real. Pacheco escritor maldito – sem dúvida mas o que é um escritor maldito em Portugal? Responder a essa pergunta dá pano para mangas mas nunca de alpaca que não era o género do Pacheco. Experimentou mas não ficou freguês. Eu sou diferente; tive o mesmo emprego 32 anos e tenho uma reforma minúscula porque fui delegado sindical. Mas não foi para falar de mim que peguei no teclado. Sou o assinante 186 do ficheiro de Pacheco e isso me basta hoje como ponto de partida. --

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por José do Carmo Francisco às 14:30

Quinta-feira, 21.04.16

«a rh - (sanguis languens)» de patrícia baltazar

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A Poesia portuguesa actual é uma paisagem povoada por livros grandes mas também por livros pequenos. Não por acaso o editor chama a este mais recente livro de Patrícia Baltazar «pequeno objecto» embora nas suas 22 páginas caibam citações de Marguerite Duras, Manuel Cintra, Ulalume González de León, Ana Hatherly, Luiza Neto Jorge, Veronika Zondek, Maria Velho da Costa, Paul Celan, Melville e Alejandra Pizarnik. O ponto de partida é a fragilidade que se inscreve no poema da página 19: «Sou pela manhã, uma criatura tão frágil, tão trémula que só medicamentos, café de balde e dois cigarros me ajudam a suspirar o dia que aí vem.» Perante a fragilidade da vida só o amor pode ser resposta: «O amor é que transforma o Mundo. O Amor é que expande o Universo. Precisamos de amor-mesmo. E de sexo também.» A Poesia pode ser (e é) o Amor: «Parecendo que não, os artistas, os escritores, os poetas, mesmo os mortos, estão muito vivos.» O poema é uma teimosa afirmação, uma dupla negação da morte. Primeiro: «Não vou morrer ainda. Vou pôr as minhas mãos em tudo o que puder. Vou abraçar os meus amigos. Vou namorar. Vou seduzir. Vou ler. Vou abraçar a minha filha com todas as forças e vou dar todo o amor que conheço.» Segundo: «Não quero deixar os meus poemas. / Não quero deixar os meus livros. / Não quero deixar a minha tentativa de palco. / Não quero deixar de beber café e fumar de manhã. / Eu sou isso tudo e mais os meus outros sonhos.». Também na despedida há uma dupla inscrição; terra e mar. Na página 21 «Porque quando desaparecer, quero deixar um grão na terra. Só um.» Na página 20 «E quando desaparecer, gostava de levar tudo comigo no mar. É que eu sou da água. Todos sabem disso.» (Edição: Palavras por Dentro, Ilustração: Manuel Cintra, Logotipo: Bruno Broa, Impressão: Artes Gráficas de Lisboa, Arte Final: Vítor Silva) --

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por José do Carmo Francisco às 13:33


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