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Transporte Sentimental



Domingo, 03.04.16

para gonçalo pereira - de como luiz pacheco pode ter lido rubem braga

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A primeira vez que troquei algumas palavras em directo com Luiz Pacheco foi na Livraria e Editora Parceria A.M. Pereira na Rua Augusta em Lisboa. Terá sido em 1968. Comprei-lhe por 7$50 um exemplar do livro «Textos Locais» que ele autografou; este livro foi impresso na Tipografia Alcobacence Lda de Alcobaça. Na geografia tudo tem a ver com tudo – Caldas da Rainha não é longe de Alcobaça e Luiz Pacheco, ao tempo, vivia nas Caldas da Rainha com a sua tribo: a mulher grávida e dois filhos pequenos. Afirma Serafim Ferreira no posfácio do livro «Textos Locais» em 1967 que Luiz Pacheco atira filhos à vida como o cavador lança sementes à terra porque «os filhos são nosso juízes e nossa aposta no futuro». Um dia pode acontecer e vai mesmo acontecer que esses filhos peçam pão («pão sem literatura, ó senhores») e não haja pão para lhes dar. Trata-se (segundo L.P.) de uma «música terrível que entra pelos ouvidos e endoidece quem a ouve». Mas é a atitude de Luiz Pacheco, a sua renúncia, o seu desdém pela ordem formal do Mundo à sua volta, o seu desprezo pela chamada vida literária que me leva a pensar neste poema algo inesperado num cronista como Rubem Braga, o poema «Adeus»: «Adeus, escritório, adeus / Para sempre e nunca mais / Eu vou partir pelo mundo / Vou para Minas Gerais. / Já não quero mais cidade / Onde tenho muita prisão / E nenhuma liberdade. / Nem quero ser lavrador / Quero ser um vagabundo / Do mais pobre e desgraçado / Mas de espingarda na mão. / Se precisar trabalhar / Mudo sempre de patrão.» Pode parecer uma ligação abusiva mas não pude deixar de a fazer; entre as atitudes de Luiz Pacheco e o poema de Rubem Braga existe algo de paralelo e de convergente. Mas nem todos podem arranjar a coragem para ficar à margem de tudo. Eu era só o 186 na lista do Pacheco. --

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por José do Carmo Francisco às 18:53

Domingo, 03.04.16

de caló a murillo lopes ou quando um azar nunca vem só

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Ainda e sempre, para mim o jornalismo é literatura e a literatura é artesanato. Nunca foi nem será indústria. Ainda sou dos que escreve à mão e usa uma régua para avançar nas linhas dos apontamentos quando os passo a limpo para o computador. Vamos aos factos. Fui convidado em 4-5-2015 pela Editora Gato do Bosque para trabalhar num livro sobre Vítor Damas. O projecto era simples, na aparência: juntar alguns textos dispersos juntar e ouvir alguma pessoas. Metade era um trabalho de arquivo, a outra metade era uma reportagem. Neste momento em que o livro saiu da Gráfica Simões e Gaspar Lda mas ainda não foi apresentado ao público, percebo que falhei uma das entrevistas, a de Murillo Lopes (n. 1944), falhei porque não a passei para o livro. Erro crasso e sem desculpa. Não sei explicar como é que as 25 linhas de apontamentos são saíram do caderno respectivo e saltaram para o «Word» e, por sua vez, para a arte final do livro «Vítor Damas – A baliza de prata». Também não sei explicar como, nas sucessivas revisões, não fui capaz de descobrir a minha falha. Estou desolado com o meu erro que é meu e só meu. Murillo Lopes que me perdoe. Tudo aconteceu numa sucessão de erros em cadeia. Quanto a Francisco Caló (n.1944) só agora, já o livro estava impresso, descobri o seu contacto e o escritório onde trabalha mas, apesar de tudo isso, o seu nome aparece várias vezes neste livro, nas páginas 26 (2 vezes), 27, 154, 210, 213, 215 e 216. E numa das fotografias. Nem o facto de ter trabalhado como repórter no Jornal «Sporting» entre 1988 e 2006 me levou a ter os contactos do popular Caló. Nunca calhou mas calha agora. Para já temos João Barnabé, Vítor Cândido e Luís Alberto Ferreira a lembrarem Caló no livro a propósito de Vítor Damas. Com Caló foram as circunstâncias, com Murillo Lopes foi um erro crasso que me tem tirado o sono há vários dias. --

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por José do Carmo Francisco às 15:31

Domingo, 03.04.16

federico garcia locar no caminho do montijo

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Era pelo Inverno de cinquenta e sete. No Porto Alto um homem de capuz e oleado segurava uma lanterna com dois vidros pintados e fazia alto com a outra mão. A ponte sobre o Sorraia era de madeira e só passava uma camioneta de cada vez. Não havia ao tempo muitas Mercedes Benz de cor verde e com a chapa do Estado. Meu pai saudava o homem entre a chuva e desejava-lhe uma boa noite impossível.

Se recordo estes passos e rituais dos caminhos desse tempo é porque aquele lugar marcava para mim o principiar da circulação de uma temperatura que me fazia lembrar Lorca. Eu tinha aprendido a ler nos jornais, meu pai trazia-os à noite para casa. Terá sido num Diário Popular que li um texto sobre o poeta assassinado. Mesmo sem conhecer os seus poemas comecei a sentir naquele espaço a respiração do verde e do vermelho, a relva sem fim e o sangue dos touros, o pó levantado pelos cavalos breves, os gritos dos campinos sempre longe e a noite sempre negra e sempre longa. Mais à frente, a caminho do Montijo, respirava o sal de Alcochete, o sabor conservado de uma angústia serena, a ideia imaginada de que estes campos verdes, estas oliveiras e este som da alegria rente à raiz de tudo, poderiam ter sido caminho do poeta Federico Garcia Lorca. Ainda hoje não sei porque cavaram tão depressa os cabouqueiros da morte. Sei que entre o Porto Alto e o Montijo algures entre verde e verde, uma sombra esguia faz sinal aos deuses e os deuses páram. Lorca poderia ter morrido aqui à porta desta taberna, a caminho do Montijo. (este texto escrito no Porto Alto integra o meu livro «As emboscadas do esquecimento») --

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por José do Carmo Francisco às 13:04


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