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Transporte Sentimental



Quinta-feira, 31.12.15

estas coisas acontecem a quem não é especialista

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A imagem da capa do livro de Manuel Simões com a nota de leitura apareceu cortada e espero que desta vez apareça correcta e inteira. O meu pedido de desculpas vem a propósito de outro dia ter aparecido a imagem da capa de um livro de Fernando Pessoa para acompanhar um texto do mesmo Fernando Pessoa sobre o provincianismo português em geral e o de Eça de Queiroz em particular. Não tinha outra imagem à mão e por isso foi a do livro que publiquei. Peço desculpa a todos os meus leitores – aqui e no Facebook. Votos de Feliz 2016 com saúde e paz! --

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por José do Carmo Francisco às 18:45

Quinta-feira, 31.12.15

«o fluir do tempo - poesia reunida» de manuel simões

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«Talvez o tempo não passe» é um verso que pode servir para uma aproximação. Manuel Simões (n. 1933) viveu em oito lugares e cultivou dez ofícios; entre os lugares e os ofícios está presente o fluir do tempo. Ferreira do Zêzere, Tomar, Leiria, Coimbra, Lisboa, Bari, Veneza e Amadora são os lugares por onde passou o poeta, o tradutor, o ensaísta, o professor, o jornalista, o editor, o blogger, o antologiador, o bancário e o empregado de escritório. Dez traduções, três antologias, oito ensaios e seis livros de poemas juntam-se à Editora Nova Realidade (Tomar) e ao ensino em Lisboa, Bari, Veneza e Florença. O autor é homem de errâncias que é um título de um seu livro de 1998. A poesia de Manuel Simões parte da memória: «A memória é um rio, dilacera-se contra as margens aluídas do tempo. A memória é povoada, marcada por antiquíssimas ordenações e códigos, modos ou motivos desta dor que noite a noite se desdobra sobre o sono perturbado do homem.» A memória pode ser colectiva em Coimbra: «Dizem os antigos que as barcas serranas desciam então o leito, penetravam dentro da cidade com sua lenha e carqueja e que as mulheres de Ceira, estas tímidas mulheres de negro, traziam nelas as suas trouxas de roupa.» Em ambos os casos a memória dá lugar à revolta que se ergue como no caso da ceifeira: «Ceifeira / levanta a foice / não dobres tanto a cintura. / Quem trabalha / a terra alheia / não pode usar / a ternura». A revolta dá lugar à canção como em José Afonso: «Houve um tempo em que vieram os cantadores de mitos com as suas violas de desespero. As cordas vibravam, tensas sob os dedos. Era o canto ou a mágoa diluindo-se contra as pedras, o folclore de súbito inventado. Um som inesperado interrompeu então o artifício, o hábito antigo. Mas o povo andava ainda longe e longe, nos seus ofícios de subsistir.» Ou então à música como Carlos Paredes: «Era um tempo dividido: / manhãs de cinza, tardes de euforia. / Era um tempo de litígio / noites clandestinas, sinais de asfixia. / Como esquecer-te guitarra de verdes / ramos rompendo a monotonia. / dor do passado, saudade do futuro / ferida aberta em som tão puro. / Verdes anos que a música prometia: / Como ave antiga, o canto nos trazia.» E de tudo isto o poeta faz a sua teoria da composição: «O artífice imerge / as mãos na matéria / avulsa a transformar. / Sem artifício investe / o próprio corpo no acto / preciso de plasmar. / Seja a matéria / argila, aço ou palavra / espúria a desbastar. / Do ofício extremo / resta o resíduo: densa / e intensa arte de amar.» Trata-se de amar: toda a poesia envolve o acto de amar pois só o amor pode responder à morte. Esse amor pode ser triste como na página 157: «Ai dos fracos de espírito, adora- / dores do consumo como ideologia. / Deles será a terra prometida /crescendo à sombra dos telefilmes, / dos centros comerciais onde a vida / não se mede com inteligência. / Deles será o paraíso às avessas / a desumana ordem que tudo banaliza. / Ai dos fracos de espírito, privados / cruelmente do poder da consciência.» Mas pode ser um amor feliz como na página 103: «Havia um pelourinho na praça principal. Redondo, / com nervuras, estilização de um homem ou, quem sabe, / de um totem. Nem parecia ser antigo na sua função / de morte. Conserva quatro braços em forma de dragão /O mecanismo do medo. No lado oposto, um edifício /branco que outrora foi igreja. Tem janelas com grades, sinais de inimizade. Sobre os ferros das grades uma bandeira / branca: na prisão de Arraiolos, na tarde sem sombra, / flutuava livre e solta uma bandeira branca.» (Edições Colibri, Capa: Raquel Ferreira, Prefácio: Ettore Finazzi-Agrò, Posfácio: Sílvio Castro, Textos: Mário Cláudio, Fernando J.B. Martinho, Roberto Vecchi) --

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por José do Carmo Francisco às 14:49

Quinta-feira, 31.12.15

da «avelar machado» à menina no palco do mundo

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O Mundo é pequeno e o acaso é grande. Horas depois de ter visto de novo uma foto de José Antunes no livro «Lisboa do nosso olhar» acabo por entrar na Libraria Avelar Machado no Poço dos Negros e vejo um livro que é um clássico do seu género: «O homem na cidade» com prefácio de Mário Sacramento e capa de Luís Carrôlo. O livro é de 1968 e é publicado pela Prelo Editora incluindo crónicas dos seguintes jornalistas, todos do «Diário de Lisboa»: Pedro Alvim, Manuel de Azevedo, Manuel Beça, Mário Castrim, Félix Correia, Joaquim Letria, Torquato da Luz, Luís d´Oliveira Nunes, Fernando Assis Pacheco e José Carlos de Vasconcelos. Tudo tem a ver uma coisa com a outra, o livro e a foto. Uma das crónicas deste livro, assinada por Fernando Assis Pacheco, refere um jogo de futebol entre os ardinas da Praça do Chile, uns pelo «Diário de Lisboa» e outros pelo «Diário Popular». O José Antunes era do «Diário Popular, o livro é feito por jornalistas do «Diário de Lisboa». Na contracapa interior lá está a frase que liga isto tudo: «Nenhum outro género literário pode oferecer melhor panorama da vida quotidiana duma cidade». E isto é cem por cento verdade. Agora volto a olhar e reparo melhor nos bibes dos meninos do Colégio do Elevador da Glória (Nossa Senhora da Encarnação) e recordo: os amarelos são dos três anos, os encarnados dos quatro e os verdes dos cinco anos. A minha filha mais nova está nos verdes e vai atrás da Guiomar. Sorri no compasso de espera do passeio. Dois anos depois estará em perigo de vida no Hospital de Santa Maria com uma septicémia. Mas no momento da foto tem cinco anos e é uma menina no palco do Mundo. Hoje está na Austrália mas posso garantir que nunca saiu daquela fotografia de José Antunes e do livro «Lisboa do nosso olhar». --

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por José do Carmo Francisco às 10:49


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