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Quinta-feira, 24.12.15
«as pulseiras de sofia águas e outras vidas» de joaquim nascimento
Depois de se estrear em 2008 com «Uma memória de Pereiros – Quotidianos de uma aldeia do Alto Douro» (Padrões Culturais), o sétimo livro de Joaquim Nascimento ostenta um título que integra o cabeçalho de uma das 67 crónicas do volume («As pulseiras de Sofia Águas») mais a expressão «e outras vidas». Porque se trata sempre, em cada crónica, de «outras vidas», uma osmose feliz entre o sangue pisado da vida e o estilo da escrita. Desde logo e para começar, se trata da vida do autor que na página 127 assim se apresenta: «Nos Pereiros ou na Pesqueira, um pouco por aqueles sítios, digam eu vão da parte do filho da Senhora Adelaide, que sou eu». Além dos três lugares do seu Mundo (Pereiros, Lisboa e Albufeira) a corresponderem cada um deles à infância, à idade adulta e à reforma, Moçambique e São Tomé e Príncipe também fazem parte da desta geografia de afectos, memórias e palavras. Como o conceito de crónica deste autor tem a ver com a distância do tempo, o olhar para o passado e o balanço sentimental da vida, não é de estranhar que a escolha do título do volume tenha recaído numa crónica algarvia, a partir do lugar da maturidade afectiva e também da escrita. Embora o autor invoque Aquilino, Eça, Camilo e Pessoa, pode vir a propósito lembrar outros vultos da Literatura que estas páginas homenageiam: Miguel Torga, Trindade Coelho, João de Araújo Correia, Raúl Brandão. Já um dia Vitorino Nemésio advertiu que «a Geografia é mais importante do que a História» e será esse o caso deste livro agora em apreço. Este volume de 67 crónicas tem semelhanças com uma garrafa de vinho fino. Porque no livro, como na garrafa, quando se chega ao fim há o desejo de recomeçar. Afinal, tal como o vinho fino, estas crónicas são «tempo conservado». Este livro conserva um tempo português determinado entre os Pereiros e Lisboa, entre o Algarve e Moçambique sem esquecer as Ilhas de São Tomé e do Príncipe. De Moçambique tem, por exemplo, a memória da Guerra na página 186: «voltei eu com uma guerra às costas que ganhei, costumo blasonar, minas, crueldade, tiros, mas não ganhei nem sequer empatei. Perdi.» O sonho de vencer a Morte está num desejo da página 100 quando o autor começa um parágrafo a afirmar «Nem quero imaginar qual será o aspecto da minha terra se um dia os sobreiros desaparecerem» e o conclui a desejar «Deviam ser eternos os sobreiros da minha terra, nós próprios e todas as pessoas que um dia amámos o deviam ser». Como amostra do estilo depurado e fino, emocionado e contido, ritmado e sintético, fica um excerto da página 133 sobre Albufeira: «Mas ouviram contar ou leram sobre as fábricas de conservas, sobre os galeões que chegavam, sobre o ribeiro, sobre o campo da bola, sobre a actividade piscatória, chegaram mesmo a identificar na fotografia os ferros de uma armação e um estaleiro de reparações mas nenhum deles se alarmou por não ver vivalma no local, nem gente, nem bicho, nem peixe». (Editora: Zaina, Prefácio: Idalina Fernanda Meireles, Capa: Álvaro Carrilho) --
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José do Carmo Francisco
às 10:49
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