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Transporte Sentimental



Sexta-feira, 11.12.15

dissertação para um quadro de ana calheiros

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Há neste quadro uma mulher de beleza sem idade que suspende no seu olhar todo o movimento do Mundo. Não sei que paisagens vão afinal povoando o seu sorriso apenas anunciado de perfil como se reeditasse as raparigas dos quadros de Vermeer entre o frio dos canais e o calor da paixão. O mesmo será dizer - entre as paisagens exteriores e as paisagens interiores. Nada ou quase nada sei desta mulher serena, sábia e sedutora, desta mulher capaz de incitar a novos caminhos para percorrer e novas direcções para tomar. No seu olhar o tempo inscreve novas paisagens para o inesperado calendário sentimental de quem a contempla na Galeria no centro da Cidade de Lisboa. O quadro regista um esplendor, uma marca, um timbre que sobe na sua voz até à maior altura desta canção ainda sem título. Porque se trata de uma canção, sem dúvida. Mesmo sem palavras, mesmo sem métrica, há aqui uma poderosa máquina de sons, uma alegria convocada, uma serena felicidade que esta mulher inaugura, anuncia e compartilha. Tal como o sol teima em afastar a névoa matinal nos lugares da cidade, os seus olhos são uma força contra a melancolia que se instalou durante a noite no coração de todos nós. Por isso o seu olhar tem a força de uma bandeira capaz de juntar todos os que se perderam nos caminhos da solidão sem esquecer os lugares do desespero e do vazio. Mesmo sem a cadência do tambor, a bandeira deste olhar convoca, treina e conduz um batalhão de indecisos. --

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por José do Carmo Francisco às 22:54

Sexta-feira, 11.12.15

o rio tejo, a «gazeta do sul» e as fragatas

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Montijo – O Tejo, a «Gazeta do Sul» e as fragatas Vi o Rio Tejo pela primeira vez em 1957 e lembro-me do que se olhava da Ponte em Vila Franca de Xira: os avieiros nos seus barcos-casa e os campinos a caminho da lezíria com o seu avio semanal. No Porto Alto à noite havia sempre um homem de capuz e oleado a segurar uma lanterna pintada de verde e de vermelho porque a ponte sobre o Rio Sorraia era de madeira e só podia passar uma camioneta de cada vez. No Montijo em 1957 estranhei a água quente nas torneiras e os homens que passavam a caminho do Campo Luís Almeida Fidalgo com um tijolo na mão. Eles queriam ver o jogo sem pagar bilhete e o tijolo ajudava junto ao muro. Outros com mais sorte subiam para o telhado da malhada do Ferra, ao funda da Rua Sacadura Cabral. As fragatas eram muito importantes ao tempo para transportar os produtos e as mercadorias do outro lado do Tejo para Lisboa. Vinha cortiça de Pegões em galeras, vinha madeira, vinho das Faias, conservas da Vila. O Frescata e o Isidoro eram as mais conhecidas. Como só havia uma ponte desde 1951 e a outra (Lisboa-Almada) só veio a aparecer em 1966, compreende-se a força e a importância das fragatas. Nesse ano de 1957 ainda se falava do naufrágio de 1941 quando morreram muitos fragateiros do Montijo (e não só) no meio de grande tempestade no estuário do Tejo, o Mar da Palha. No Santuário da Atalaia havia desenhos ingénuos daqueles que no meio do desastre tinham invocado a protecção da Senhora da Atalaia e vinham agradecer por ela os ter salvo. Foi no Montijo que vi o primeiro jornal da minha vida, a «Gazeta do Sul». Naquele temo havia poucas máquinas de escrever e os jornais eram feitos a chumbo. Eu ia a caminho da Escola Primária e ficava com o nariz colado ao vidro das oficinas do jornal onde se estreou o poeta Sebastião da Gama. Nasceu aí a minha actual carteira de jornalista. --

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por José do Carmo Francisco às 14:58


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