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Sábado, 05.12.15
«passos perdidos» de ernesto rodrigues
Ernesto Rodrigues (n.1956) é um profundo conhecedor do século XIX português tanto no jornalismo, na cultura e nas artes como na política, na ciência e na história. Homem dos sete ofícios na área das letras (poeta, tradutor, editor, ensaísta, crítico, contista e ficcionista) foi também jornalista e leitor de Português na Universidade de Budapest. Neste seu recente livro de ficção, o século XIX está bem presente no primeiro capítulo cujo título é uma homenagem a Camilo Castelo Branco enquanto o discurso de José Luciano de Castro aqui recordado acompanha a outra homenagem (mais discreta) pois o enredo amoroso lembra outro romance de Camilo - «Coias espantosas». Trata-se de facto da queda de um anjo, neste caso um deputado com a idade da democracia («vou candidatar-me à décima quinta eleição») que exerce o cargo desde 1975 num Parlamento que já foi Mosteiro de São Bento da Saúde e é vizinho do Poço dos Negros: «Em 1515, D. Manuel mandara abrir um poço para enterrar os escravos, sem direito a adro ou interior de igreja.» Nesse Parlamento uma senhora ocupa o trono e diz coisas como esta: «O meu medo é o do inconseguimento…o inconseguimento de eu estar num centro de decisão fundamental a que possa corresponder uma espécie de nível social frustracional derivado da crise.» É no velho edifício parlamentar que surge um projecto novo: «comprar aldeias vazias do interior, para férias, onde se circulasse de bicicleta.» Mas antes de o projecto entrar no hemiciclo a narrativa regista e sinaliza algumas opiniões certeiras (e talvez camilianas) sobre os problemas do país («falta-nos uma justiça inteligente; no seu lugar crescem lóbis»), sobre o Governo («pejado de licenciados em Direito que pouco fazem e sonham nada fazer») e ainda sobre os candidatos à Assembleia: «Quanto mais estúpido for o candidato melhor responderá ao elogio; necessitado, mais cedo cede às migalhas». A narrativa combina a lucidez com o humor. Veja-se a referência a um pequeno partido («num partido que cabe em dois ou três táxis, fácil se tornava identificá-los») ou a um comentador televisivo também docente universitário («que lia livros como likes eu punha no facebook») e tudo isto numa terra, a nossa terra, «que já quase nada produz, além de nabos». Para além do enredo da história, o interesse do livro está na ironia suprema de, 150 anos depois do discurso de José Luciano de Castro, mostrar que o país continua em muitos aspectos hoje (2015) como no tempo do discurso - 1865. Algumas gralhas não alteram em nada o fascínio do livro: «snob» sem itálico na página 57, desconto de tempo «como no futebol» na página 71, «constituintes» por eleitores na página 76, «também» sem acento no «e» na página 80 e «cachas» de batatas por cascas na página 115. (Edição: Âncora Editora, Capa: Sofia Travassos Diogo, Foto: António Baptista Lopes) --
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por
José do Carmo Francisco
às 19:34
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