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Transporte Sentimental



Quinta-feira, 06.08.15

fontes - das casas mortas, da água e da memória

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Chamar casa morta a esta casa é uma força de expressão. Quem morreu foi o dono da casa. As casas só morrem quando são deitadas abaixo pelos pedreiros ou ficam submersas pelas águas das barragens. Vilarinho das Furnas ou Alqueva são dois exemplos opostos. No primeiro caso as pessoas fugiram assustadas e algumas receberam uma bagatela de dinheiro que se gastou depressa em telefonias e outros objectos perecíveis. No segundo caso a empresa construiu de raiz uma aldeia nova, a aldeia da Luz. Até o cemitério mudou. Mudou a vida e mudou a morte. Aqui onde escrevo, perto da casa morta, houve gente que morreu de desgosto. Outros mataram-se porque a vida deles perdeu o sentido. Hoje, no ano de 2015, poucos se lembram do nome dos que morreram com a subida das águas da albufeira do Castelo de Bode. Os serviços da Câmara de Vila de Rei não referem sequer o nome das oito povoações que ficaram sepultadas debaixo do lençol de água. Eram as terras mais mimosas, as melhores hortas, as melhores vinhas, os mais ricos pomares porque (diz a sabedoria das nações) onde há água há vida. Estranha contradição: foi a água em excesso que trouxa a morte àquelas pequenas povoações e aos seus habitantes. Uma casa que morre é uma lareira que se apaga, um quarto de dormir que se fecha, uma memória que se perde no som dos milhões de hectolitros da água da barragem. Hoje quase ninguém se lembra dos nomes de quem morreu para que a nova barragem lhe interrompesse o seu percurso e os sonhos. Eles não queriam morrer mas os homens dos gabinetes, aqui e em Lisboa, não ponderaram nem souberam parar para pensar de novo. A albufeira tem ainda hoje lágrimas dessa anónima gente cujo nome se perdeu no tempo. --

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por José do Carmo Francisco às 10:56


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