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Transporte Sentimental



Quinta-feira, 18.06.15

«murmúrios com vinho de missa» de álamo oliveira

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Álamo Oliveira (n. 1945) é um autor multifacetado (ensaio, teatro, conto, romance, poesia) e este é o seu 37º título publicado desde 1968. Fundador, director e encenador do Grupo de Teatro Alpendre, a sua narrativa exibe uma marcação teatral afinada e uma carpintaria hábil sem esquecer o coro que anuncia a tragédia. Porque se trata de uma tragédia à qual poderia ter sido dado o título de «O pão, a culpa e a escrita» pois existem no enredo paralelo dos protagonistas (Professora Lucília e Padre Raul) o mesmo pão amargo, a mesma culpa profunda e a mesma escrita convergente apesar da geografia. Há um percurso comum aos dois heróis da narrativa: ambos vivem como pastores duma solidão que povoam de náufragos. Lucília afirma: «limito-me a gerir o medo de tudo o que acabou por acontecer: ficar sozinha e sem dinheiro». Padre Raul vive a sua solidão como o cálice do Jardim das Oliveiras: «estava cheio de medos da traição, do desamor, do desperdício, da morte». Lucília dá conversa a Márcio que estuda nos EUA com uma exígua bolsa de estudo; Padre Raul cruza-se com José Carlos que vive com os avós a quem rouba o que pode. Ambos são prostitutos e vendem o corpo a troco de pouca coisa (senha de refeições nos EUA, peças de roupa nos Açores) mas ambos vão roubar dinheiro para uma mota potente e veloz. O primeiro em dólares e o segundo em contos. Os dois heróis ganham a seu lado figuras de moderação. Nos EUA Lucília tem o amigo Jonathan («Desfaça-se desse puto») e nos Açores o Padre Raul tem o sacristão que o adverte: «o ladrãozinho de meia tijela nem se chama José Carlos». Os dois tempos da narrativa oscilam entre os EUA («A América peida-se e vende o mau cheiro como perfume») e os Açores: «O amor perdeu espiritualidade e ganhou orgasmo; o dinheiro perdeu honradez e ganhou violência. Os padres têm preferido esconder a cabeça na areia». Dito de outra maneira: «Americanos são os índios. O resto cabe no plural da palavra saqueador» nos EUA e «Havia mais escolas, hospitais, aeroportos, estradas, habitações e dinheiro, tráfico de droga, insucesso escolar e crimes» nos Açores. Comum também é a poesia de António Botto, lida por Jonathan na América e pelo Padre Raul na sua Ilha. Numa página surge a comovida memória do poeta Emanuel Félix, noutra a leitura do sismo de 1-1-1980 e algumas palavras locais (engronhava, pitafe, corsário, desbuntar, picaporte, rajado) que também são universais. Como universal é a sabedoria da avó: «Conhecer o mundo não é conhecer a vida. A vida alaga-se e seca-se em qualquer parte do mundo. É muito melhor imaginar o mundo do que conhecê-lo». (Editora: Letras Lavadas – PUBLIÇOR, Nota de contracapa: Luiz António Assis Brasil) --

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por José do Carmo Francisco às 22:34

Quinta-feira, 18.06.15

«páginas...» de antónio de sousa homem

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Com o subtítulo de «Crónicas de um reacionário minhoto», este é o quarto título de António Sousa Homem (n. 1921) depois de «Os ricos andam tolos», «Os males da existência» e «Um promontório em Moledo». Livro dedicado a dois bibliotecários (Celina Lopes e Henrique Barreto Nunes) vem resgatar, do efémero profundo do jornal, as crónicas deste autor que não é (ver página 8) anterior ao Titanic (1912) mas sim posterior (1921) e afirma sobre si mesmo «eu não sou um autor» sublinhando a seguir - «nasci praticamente com trinta anos». O ponto de partida do livro é a geografia local («Caminha, Cerveira, Âncora, Moledo») num tempo em que o clima perdeu importância («deixámos de usar chapéu, abafos e fazendas»), a idade «é um assunto banal» e saber envelhecer é a «principal tarefa dos seres humanos com juízo». O autor não pensa na morte porque, mesmo na curva dos noventa, sublinha que «não costuma cismar». Mas acredita «na história, na vida em sociedade e na penicilina» ao contrário da Tia Benedita para quem «a imoralidade, o bolchevismo, a maçonaria e o adultério» eram consequência do pecado original. Mesmo em Moledo, o autor não se fecha ao Mundo. Pensa nos portugueses e avisa («ignoram a História, acreditam em auto estradas e telemóveis, desconfiam do pessimismo»), pensa em Espanha e explica «É a Espanha que garante a nossa existência real») e olha o Mundo quando recorda: «havia um mundo antes da democracia, da televisão a cores e dos romances escritos em conflito com a gramática». A Literatura está presente nas referências a Pedro Homem de Mello («o meu pai considerava-o um emblema de lágrimas de outrora») ou a Camilo Castelo Branco que nasceu em Lisboa mas era um homem do Minho: «Nós sabíamos que o retrato verdadeiro, o retrato cru, o retrato fidelíssimo da nossa amargura vinha nas páginas de Camilo, nas implicações de Camilo, no velho romantismo de Camilo. E, sobretudo, no humor trágico e de comédia risível do bruxo de Seide». Conclusão: mesmo prometendo não escrever as suas memórias, o autor não tem feito outra coisa como quando afirma: «Amamos o país mas queremos outro; temos pouca paciência e não sabemos esperar». (Editora: Bertrand, Prefácio: Pedro Mexia, Capa: Ana Monteiro) --

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por José do Carmo Francisco às 14:07


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