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Transporte Sentimental



Sexta-feira, 24.04.15

fernando chagas duarte - «quase cem poemas de amor e outros fragmentos»

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A Poesia não é a voz do Mundo. E talvez nunca tenha sido. A voz do Mundo é o ruído, a guerra e a morte enquanto a Poesia aspira a ser a voz da luz, da paz e da vida. Misto de canção e de reflexão, o Poema procura ser o ponto de encontro entre o sangue pisado e o estilo, entre o mundo pessoal e a oficina da escrita, entre o lado de fora e o lado de dentro do Poeta. Se a vida é curta e a morte inevitável, só o amor pode resgatar essa angústia que persegue o Homem. Este livro de Fernando Chagas Duarte (n.1964) surge com o propósito explícito na dedicatória de «envelhecer contigo até adormecer». Se por envelhecer entendermos o conceito de durar, este foi sempre o projecto de todos os livros ao longo dos tempos. Durar, permanecer, ficar. Mas se a Poesia não é a voz do Mundo procura ser a voz do Homem. Alexandre O´Neill comparou um dia a Poesia ao Boxe quando se comparou a Belarmino Fragoso. Vejamos: «Tiveste jeito, como qualquer de nós / e foste campeão, como qualquer de nós. / Que é a poesia mais do que o boxe, não me dizes?/ Também na poesia não se janta nada / mas nem por isso somos infelizes. / Campeões com jeito / é a nossa vocação, nosso trejeito…/ Belarmino: / quando ao tapete nos levar / a mofina / tu ficarás sem murro / eu ficarei sem rima / pugilista e poeta, campeões com jeito / e amadores da má vida.» É claro que a Poesia não se define, apenas se podem fazer algumas aproximações. Esta de Alexandre O´Neill é uma das possíveis. Portugal é um país de analfabetos, a marca da Inquisição que é do passado está ainda muito presente, o quadrilátero da vergonha continua nos sobreviventes e nas memórias: Aljube, Caxias, Peniche, Tarrafal. Num país de analfabetos o Poeta é um saco de pancada e a Poesia também. Esquecida em revistas de escassa tiragem, amarelecida em prateleiras mais distantes das poucas livrarias, a Poesia em Portugal é um exercício condenado à marginalidade. É tão errado chamar a Portugal país de poetas como defini-lo como país de brandos costumes. Agora do geral para o particular, voltemos ao livro. O poema da página 59 representa essa proposta de ligação entre a vida e a escrita. Neste caso filho e livro. Porque o livro é um filho mas o filho é um livro a ser escrito todos os dias. Eis o poema: «Ouve-me, meu filho / Ouve-me sem a atenção ordinária do homem comum / Ouve-me falar contigo enquanto falo comigo / Como só tu sabes ouvir com pouco dizer / e muito perguntar. / Ouve-me neste «blues» arrastado / em que te ensino o que sei da vida / Ouve-me quando te digo o que não digo e sempre direi. / Aprendi a música pelo teu choro / Reaprendi a gostar com o teu consolo / Ouve-me, meu filho / E ensina-me o que não sei.» Um aspecto curioso neste livro é a invocação, a começar pelo título, de Pablo Neruda. Mas também de Eugénio de Andrade ou de Vinícius de Moraes. Ou de Tom Jobim, poeta da música. Outro poeta que poderia ter sido invocado é Manuel da Fonseca. O seu poema «Aldeia» junta a abrir Poesia e Geografia em meia dúzia de linhas: «sete casas / duas ruas / no meio das ruas / um largo / no meio do largo / um poço de água fria.» Julgo que é nessa linha a cruzar a voz do Homem com a voz do Mundo que surge o poema da página 72; ele junta de novo Natureza e Cultura em doze linhas precisas, sintética e perfeitas: «O RIO O meu rio é tumultuoso / de risos e vontades. / Percorre vales pedregosos / Corta vertentes / Molda solos / Marca os dias / Busca o mar. / Sob ritos escaldantes / e farpas afiadas / todos os dias o rio encontra / o nossos caminho / para o mar.» (Chiado Editora, Capa: Miguel Conde) --

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por José do Carmo Francisco às 10:31

Quinta-feira, 23.04.15

traduções, traições e outras palermices

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Portugal é um país de analfabetos. Todos sabemos isso, é do conhecimento geral. Não basta ouvir o Governo, os seus ministros e os secretários de Estado para se perceber como a estupidez chega ao púlpito e ao altar porque até qualquer pequeno gesto como comprar cinco litros de vinho tinto dá azo a um comentário risonho. Vejamos algumas das palermices. Na caixa de papelão que envolver o vinho tinto comprado por mim hoje no supermercado está escrita a palavra «see» (ver, olhar) em vez de «sea» (mar) e isto até faz lembrar aquela do chinês que fez um postal turístico sobre Lisboa onde está escrito «Elevador do Havre» em vez de «Elevador do Lavra». Outra frase mal escrita na caixa de papelão é a seguinte: «Caves XXX is a well-know name» quando deveria ser «Caves XXXis a well-known name». A diferença é que «know» quer dizer conhecer e «known» significa conhecido. Segundo o excelente dicionário «Webster´s Seventh New Collegiate Dictionary» da Merriam-Webster (em edição americana mas o inglês é puro) o significado está assim - «well- known significa fully known». O analfabetismo também se manifesta nestes pequeninos pormenores pois há pequenas coisas que não são coisas pequenas. Umas Caves tão importantes que exportam vinhos brancos e tintos para países de língua inglesa e de língua francesa mas afinal entregam a tradução a quem não sabe da poda. Ora aí está uma expressão bem portuguesa para este caso das palermices da tradução. Os exemplos são elucidativos da pobreza geral da coisa. Não escrevo o nome das Caves por uma questão de piedade. É porque como se escreve na Bíblia «eles não sabem o que fazem». Portugal sempre foi e continua a ser um país de analfabetos. --

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por José do Carmo Francisco às 15:22

Quinta-feira, 23.04.15

antónio rebordão navarro e «as ruas presas às rodas»

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A morte civil de António Rebordão Navarro (1933-2015) surgiu-me no Facebook com uma chamada para a notícia de um jornal «on line». Essa notícia tem alguns erros e imprecisões, o que é ainda mais chocante com um escritor e poeta que prezava muito o rigor da escrita. Lembro-me das voltas que ele deu em Vila Viçosa lá pelos idos de 1987 por causa do nome do actor Dirk Bogarde (1921-1999) que apareceu num seu poema como Dick Bogart. Outro erro crasso consiste em lhe atribuírem a edição das cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues quando eu sei que tal tarefa coube a Joel Serrão. Adiante. Tenho uma história bonita passada com um original de António Rebordão Navarro assinado com pseudónimo. Eu era membro de um júri de um prémio literário e escolhi como possível vencedor um original a concurso com o título de «As ruas presas às rodas». Trata-se da vida de um motorista e do seu automóvel mas também da cidade do Porto e das suas ruas. Eu escolhi este original como o melhor de todos só que os outros membros do júri não tinham a mesma ideia e votaram noutro original. O resultado foi 2-1 como no futebol e eu aguentei a derrota mas nunca me esqueci do título. Como é natural o Vereador da Cultura só abriu o envelope do vencedor e eu fiquei sem saber quem era o autor do «meu» original. «Meu» salvo seja, apenas o meu preferido. Anos depois soube pela revista da Sociedade Portuguesa de Autores que o livro próximo de António Rebordão Navarro era o «meu» original, esse «As ruas presas às rodas», sem tirar nem pôr. Soube depois que o editor foi a Afrontamento e a edição é de 2011. Neste momento de luto recordo uma história sorridente que prova a razão do meu sentimento de justiça. O livro era mesmo bom como o António que vai continuar nos livros que deixou. --

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por José do Carmo Francisco às 08:58

Quarta-feira, 22.04.15

carl sandburg e as palavras de alexandre o´neill

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O volume é pequeno mas precioso. Tem na aparência 38 páginas de leitura que afinal são 33 pois o livro começa com a página 5. São 19 os poemas de Carl Sandburg selecionados e traduzidos por Alexandre O´Neill. Vejamos as suas palavras de apresentação: «TEMPO DE POESIA - Num país de poetas que não lê os poetas, tentar pôr ao alcance de um largo público pequenas antologias de obras poéticas mais significativas poderá parecer empreendimento de todo em todo insensato e destinado a não alimentar senão as veleidades de intervenção cultural de quem o tomar a seu cargo. «Aprisionada» em revistas de escassa tiragem ou em efémeras páginas literárias, «amarelecida», sob a forma de livro, nas estantes menos à mão das livrarias, não passará, afinal, a poesia de um absurdo vício, de um roer-as-unhas, de um falar-só tão sem destino como o monologar dos tolinhos? Assim é, infelizmente, aqui e agora na vergonhosa maioria dos casos. Vacuidade camuflada com palavras, estupidificante «diálogo» com absolutos de algibeira, alpista de «mistérios» que desprendem bafio, reaccionaríssimo testemunho de uma «amor» que se deseja eterno só para melhor «eternizar» a sujeição da mulher, em que pode interessar-nos esse como que monótono zunido que é o sinal sonoro da poesia portuguesa de hoje?» Não há qualquer registo da data em que o livro foi composto e impresso, podemos presumir que se trata dos anos 60 até pelos nomes de responsáveis pelas outras colecções das Edições Tempo (Alexandre Pinheiro Torres, José Tengarrinha e Luís de Sttau Monteiro na Ficcção, no Ensaio e no Teatro) mas o importante é o diagnóstico de Alexandre O´Neill que invoca uma frase de Lautréamont «A poesia deve ter por objectivo a verdade prática.» --

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por José do Carmo Francisco às 09:43

Terça-feira, 21.04.15

adelino gomes e a minha gente de vila franca de xira

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Sete anos passaram afinal num instante, a malta da nossa Escola Comercial e Industrial de Vila Franca de Xira enche de sorrisos a foto de Miguel Dantas e o texto de Adelino Gomes na Revista do Jornal «Público» de 16-12-2007. A nossa Escola já não existe e por isso a fotografia onde estou ao lado do Álvaro Pato, do Arnaldo Ribeiro, do Vidaúl Froes Ferreira e do Zé Carlos Lilaia, engloba a igreja paroquial. Lá dentro eu vi o Carlos Cruz, cunhado futuro do Mário Viegas a trabalhar ainda como diácono do Padre Moniz mas a caminho de ser presbítero que não chegou de facto a ser. Mas isso é outra história que eu contei um dia em Ponta Delgada ao Mário Viegas no ano de 1989 num animado jantar com actores e poetas. Agora interessa é perceber como sete anos passaram num instante. Ontem estive com o Adelino Gomes na Sociedade Portuguesa de Autores para festejar com ele a entrega do Prémio Igrejas Caeiro, já antes atribuído a Luís Filipe Costa e João Paulo Guerra. Ao meu lado ficaram o Viriato Teles e o Mário Figueiredo, as palmas de todos foram quentes, o ambiente foi especial com muitos amigos a não faltarem e o Adelino Gomes a encher a sala com histórias de outros tempos. Poe exemplo aquela coisa de chamarem «Fiscalização» à «Censura» nas Emissoras de Rádio, aqueles senhores que andavam pelos corredores e, de vez em quando, lá ia mais um empregado dessa emissora para o desemprego. E também a lista das pessoas despedidas da Emissora Nacional por assinarem o apoio ás figuras da oposição em 1949. Afinal foram doze e só sabemos que o Igrejas Caeiro é uma delas. É preciso saber os nomes todos, homens e mulheres com coragem naquele tempo de 1949. Não era fácil; pelo contrário era muito mais difícil do que hoje em dia. Hoje os problemas são outros. --

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por José do Carmo Francisco às 15:18

Terça-feira, 21.04.15

levi condinho - o que se descobre no meio de papéis velhos

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«Facturas, recortes, cartas, papéis velhos, arquivo» - este poderia ser o título mas também poderia ser outro ou ainda outro mas sempre algo parecido com este. O importante é saber o que se descobre no meio das gavetas com coisas dos anos 80 e 90. O recorte do jornal «A Bola» tem um título bem apelativo: «Paço de Arcos, o hóquei em patins e José Gomes Ferreira». O autor é Levi Condinho e a data apenas pode ser adivinhada: talvez 1989 que é a data dos outros papéis soltos aqui ao lado. A crónica deste meu amigo, a quem também devo a foto de Jesus Correia, começa por referir José Gomes Ferreira (1900-1985) que «seduziu e galvanizou toda uma geração ávida de libertação», recorda o seu livro de memórias «Os segredos de Lisboa» no qual algumas páginas recordam o fim dos anos 40 quando Portugal se começava a salientar no pequeno Mundo do hóquei em patins com a conquista de vários títulos mundiais e europeus. A crónica deriva para o ano de 1952 quando Levi Condinho tinha 11 anos e passava as férias grandes em Paço de Arcos: «Noite amena de Verão. Foi um Paço de Arcos-Cascais a contar para o «Distrital». Tenho ainda «arquivados» na memória os flashes e recortes do jogo, a solenidade de impor respeito do keeper Emídio Pinto, a fibra ágil e nervosa de Correia dos Santos, o sentido total do jogo e do remate de Jesus Correia, a presença cumpridora de Raposo e (julgo) de Virgílio. Vitória do Paço de Arcos por 4-1. E no ano seguinte calhou-me um Paço de Arcos-Sintra. No Sintra jogavam nessa noite os «mundiais» Magalhães e Edgar. Derrocada por 7-2, frente ao «furacão» dos primos Correia. O «espírito do lugar» mantém-se bem vivo no meu subconsciente. Sempre que vou ou passo por aqueles sítios, todas essas memórias afloram ao meu espírito como música longínqua, nostálgica…» --

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por José do Carmo Francisco às 11:48

Segunda-feira, 20.04.15

«tendências dominantes da poesia portuguesa da década de 50» - fernando j.b. martinho

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Fernando J.B. Martinho (n.1938) além de professor (Bristol, Santa Barbara, Lisboa), crítico e ensaísta especializado em Poesia Portuguesa Contemporânea («Orpheu», «Presença», Pessoa, Sá-Carneiro) é também autor de dois livros de poemas: «Resposta a Rorschach» e «Razão Sombria». Tal significa que, além de conhecer a História, o autor conhece também o Ofício. Esta é uma década de Revistas de Poesia como, por exemplo, Árvore, Pirâmide, Cassiopeia, Cadernos do meio-dia, Graal, Távola redonda, A serpente, Sibila, Notícias do Bloqueio, Tempo presente e Eros. Os anos 50 são o tempo da guerra fria com a ditadura de Salazar a sentir uma certa estabilidade («Está tudo bem assim e não podia ser de outra forma!») depois da entrada do país na OTAN (1949) e na ONU (1955) sendo o conformismo geral abalado em 1958 pela candidatura presidencial do general Humberto Delgado. Afirma o autor: «Quanto à atmosfera mental da década, pode dizer-se que o cepticismo perante as utopias, o pessimismo, por um lado, e a acentuação da singularidade, da individualidade, frequentemente derivando para as formas extremas de solipsismo, por outro, é que lhe dão o tom. De certo modo, a geração que assiste aos alvores da era atómica, experimentando ao mesmo tempo «visões apocalípticas do final da civilização» antecipa, pela desconfiança que começam a merecer-lhe as ideologias e as grandes utopias e pelo refúgio no individual, ou mesmo por uma ou outra afloração do mais virulento niilismo, a agonia da modernidade e a entrada na cultura pós-moderna.» Conclusão, precária embora: os anos 50 são mais que uma década, uma geração e um grupo, são mais que dois percursos paralelos (surrealismo/neo-realismo), os anos 50 são todo um tempo poético onde cabe o medo («O medo vai ter tudo») mas também o amor («Tu não mereces esta cidade») de Alexandre O´Neill ao lado do amor de António Ramos Rosa: «Não posso adiar o amor para outro século / Não posso adiar o coração»). Fernando J.B. Martinho adverte: «A grande diferença entre a «poesia de protesto, de revolta» da geração de Ramos Rosa e a poesia de protesto neo-realista é que o que naquela está em causa são sobretudo os reflexos dos «condicionalismos sociopolíticos» da consciência individual. De resto, na linguagem da época, a «revolta» em oposição à revolução, assume um carácter marcadamente individual». Apenas duas citações deste livro fascinante. Fernando Lemos afirma: «Os Poetas escrevem da esquerda para a direita. Quando os Outros lêem da direita para a esquerda, não entendem o que o Poeta lhes diz». Natália Correia conclui: «Dão-nos marujos de papelão / Com carimbo no passaporte/ Por isso a nossa dimensão / Não é a vida. Nem é a morte». (Editora: Colibri, Capa: pormenor de um desenho de Cruzeiro Seixas) --

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por José do Carmo Francisco às 22:10

Domingo, 19.04.15

«cancioneiro do ribatejo» organização/prefácio de alves redol

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Com o subtítulo de «A vida do Povo cantada pelo Povo», o ponto de partida deste livro é uma frase de Almeida Garrett: «Quem não tem olhado senão à superfície da nossa literatura, não crê que ao pé, por baixo, andava outra literatura que era a verdadeira nacional, a popular, a vencida, a tiranizada por invasores gregos e romanos». Editada em 1950, esta recolha demorou 14 anos e contou com a colaboração de: Henrique Lamas, Álvaro do Amaral Neto, Bona da Silva, Teresa Redol, Delmira Redol, João Galão, Faustino Bretes, Francisco Alves Moreira, Luís Duarte, Manuel Cartaxo, Diogo Roque, Rodrigues Regalão e Estevão Pio Nunes. Depois do trabalho sobre «Glória –uma aldeia do Ribatejo» não admira que Alves Redol tenha ficado enfeitiçado pela quadra popular. Rodney Gallop definiu essa quadra como um misto de «sinceridade, nitidez, concisão, espontaneidade e humanidade comunicativa». A poesia ao longo dos séculos nunca recuou em chamar as coisas pelos seus nomes, algo entre a canção e a oração. Muitas vezes o analfabeto tem consciência de que cantar é o melhor remédio contra o esquecimento; se cantar o poema já não se perde. A oração é a outra metade do poema, a ligação ao mundo que está por cima, a comunicação com o desconhecido, com a outra diferente realidade. Ou seja; tanto pode ser a saudade do amor («Se fores ao Alentejo / ao monte onde eu mondei / a filha do lavrador / que case que eu já casei») como a poderosa lucidez de quem sabe o seu lugar no Mundo: «Quem é pobre sempre é pobre / quem é pobre nada tem / quem é rico sempre é nobre / e às vezes não é ninguém». Apenas mais duas quadras mostrando como exemplo as duas geografias: a da paisagem e a da alma. No primeiro caso as cheias do Tejo: «Temos nova invernia / temos o povo assustado / se o tempo não alivia / temos o campo alagado». No segundo a geografia da paixão: «Os teus olhos são escuros / como a noite mais cerrada / mas apesar de tão negros / sem eles não vejo nada». Nas 200 páginas do livro e nas centenas de quadras está toda a alma do Povo – ofícios e profissões, vida e morte, pobreza e sabedoria, queixumes e vaidades, festas e cantigas. (Editora: O MIRANTE, edição comemorativa dos 100 anos do nascimento de Alves Redol) --

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por José do Carmo Francisco às 10:24

Sábado, 18.04.15

dissertação breve para a memória de dinis vital

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A fotografia, excelente e cheia de vida, devo-a a Levi Condinho que de vez em quando me envia coisas antigas do Sporting, do Benfica, do Caldas, de Os Belenenses ou dos Nazarenos. Outras vezes são fotos individuais como é o hoje o caso de Dinis Vital definido como «valoroso guarda-redes do Lusitano de Évora». Outro dia será o Fernando Cabrita, hoje fixo-me no Vital que eu «conheci» dos relatos da rádio nos anos 50 e 60 aos domingos. Era sempre depois das três da tarde logo a seguir às marchas militares de John Philiph de Sousa. Um dia cruzei-me com o Dinis Vital em Montemor-o-Novo num União-Torreense do ano desportivo de 72/73 ou 73/74 – não posso precisar hoje. Sei que fui para Évora em Setembro de 1972 e de lá vim para Lisboa em Fevereiro de 1974. Quem me levou até Montemor-o-Novo foi o (ao tempo) segundo- sargento Simões com quem me dava muito bem apesar de eu ser um furriel miliciano. Aliás eu dava-me bem com os primeiros- sargentos e com os sargentos-ajudantes e o mesmo sucedia com os oficiais do quadro e milicianos que para mim eram todos iguais em direitos e deveres. Isto no Hospital Militar onde estava colocado em diligência permanente pois pertencia ao RI16. Pode parecer acaso mas hoje encontrei o senhor Vítor Sério, funcionário do Sporting, cujo pai foi guarda-redes de Os Belenenses quando Vital já estava no Vitória de Setúbal. Foram contemporâneos nas selecções «A» e «B» na sempre eterna discussão entre os prováveis e os possíveis. Sério em Os Belenenses e Vital no Lusitano e no Vitória de Setúbal ambos brilharam no seu tempo. Hoje Vital brilha numa memória de onde nunca saiu nem vai sair. O mesmo é dizer um certo tempo português em que o futebol era humano e os olhos dos jogadores não tinham ainda no seu campo visual o podre do dinheiro. --

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por José do Carmo Francisco às 16:52

Sexta-feira, 17.04.15

memória para adelino tal e qual entre sol e pó

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A 210 quilómetros da grande cidade, o sorriso de Adelino convida a um copo na sua adega, com azeitonas e meio casqueiro na mão. Lava os copos na água fria de um garrafão empalhado («Esta é do furo!») e bebemos à nossa saúde e dos netos. Saudamos o passado e o futuro porque o presente são os filhos que estão a trabalhar. Empurra as galinhas com um gesto largo mas elas não desistem. O vinho é morangueiro mas é muito bom. Largos minutos depois, ainda as mulheres estão a despejar a bagageira do automóvel, já Adelino sorri de novo («Eu não dizia?») e os sacos de plástico não acabam. Desce comigo até à casa velha da outra banda para mostrar como a ribeira vai seca e lamenta: «Assim as nascentes não rebentam!» Obriga-me a aceitar um saco de plástico cheio de pinhas para acender o lume e meia dúzia de ovos para fritar com azeite «do nosso». Adelino é guloso mas quem não será guloso com estes ovos amarelos de galinhas que só comem milho «do nosso»? Passa o peixeiro, passa o padeiro, passa o rapaz dos Correios; cada um com o seu apito estridente marca o ritmo do dia nesta aldeia. Outro som sai do posto público, uma casinha de cortiça, de onde Adelino aparece depois de chamar um táxi. No seu português dirá «já chamei o carro de praça!» porque nunca se vai habituar a dizer táxi. Amanhã, tal e qual, entre o sol e o pó, Adelino repetirá o convite, entre sorrisos e cumplicidade - «Quer vir à vila mais eu? Já vem aí o carro de praça!». Na ponte sobre a ribeira que vai seca («e já vamos em Março, veja lá») Adelino é um perfil, uma mistura de memórias e de sombras, num gesto galhardo de votos de boa viagem para nós, os de Lisboa. Obrigado Adelino, até sempre! Daqui até à vila ainda sou capaz de me cruzar com o seu «carro de praça». --

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por José do Carmo Francisco às 08:38



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