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Transporte Sentimental



Quinta-feira, 26.02.15

«a ambivalência do sagrado» de aurélio lopes

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Com o subtítulo de «Deuses e demónios nas terapias populares», este novo livro de Aurélio Lopes (n.1954) estuda o modo como o Povo Português viveu (e vive ainda hoje) no seu quotidiano a dupla inscrição de Deus e do Diabo. Por um lado Deus que o autor refere deste modo: «Pois se Deus é (por definição) bom, o Diabo (acredita-se) também não é mau.» A chamada astúcia popular existe e manifesta-se na frase «é preciso andar de bem com Deus e com o Diabo» ou também em «É preciso acender uma vela a Deus e outra ao Diabo». Mas, segundo o autor, o Diabo (ou Demo) «representa o contrapoder, a potestade marginal e obscura que se opõe aos poderes eclesiástico e temporal; o espírito rebelde, imoral e subversivo; o insensato que se opõe ao senso comum; o derradeiro socorro quando os outros se esgotam ou se mostram inacessíveis.» A este título tem muito de exemplar a situação vivida em 1870 quando o arcebispo de Braga soube da existência em Amarante de «um casal de Diabos» (ainda por cima fortemente sexualizados) e ordenou que fossem queimados por achar nefasta e escandalosa a convivência com os santos. Mas o prior limitou-se a mandá-los mutilar nos órgãos sexuais tendo eles passado a um canto da igreja até que o senhor Alberto Sandeman, cavalheiro inglês, prontamente os adquiriu por três libras de ouro, enviando-os para Londres onde fizeram furor. «Entretanto os amarantinos não se tinham conformado com a forçada emigração dos seus Diabos de estimação, clamando pela sua restituição. De tal forma que o então ministro dos Negócios Estrangeiros consegui que o senhor Sandeman devolvesse o casal de divindades , provocando o delírio nos amarantinos. Ao chegarem a Amarante , foram recebidos por Banda de Música, pelas entidades públicas, particulares e por uma multidão exuberante.» E conclui Aurélio Lopes: «este é um bom exemplo de devoção popular a diabolizadas potestades pré-cristãs perpetuando-se pontualmente através de tempos imemoriais até chegar, com particular vitalidade, aos nossos dias.» (Editora: Apenas Livros, Revisão: Luís Filipe Coelho, Direccão: Ana Paula Guimarães, Apoios: FCT, IELT e FCSH da Universidade Nova) --

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por José do Carmo Francisco às 14:27

Quinta-feira, 26.02.15

uma sardinha de lisboa para oleg basyuk

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Depois de Ruslam Botiev (da Mongólia) e de M. Nagashima (do Japão), o meu terceiro pintor estrangeiro de Lisboa é Olega Basyuk, um artista que veio da Ucrânia e vive no Chiado. Esta sardinha de Oleg Basyuk com a cidade de Lisboa dentro do seu perímetro representa um desejo de Sol bem ao lado do cansaço da chuva, do frio, do vento e da neblina matinal. Para quem chega da Ucrânia, tal como quem aparece aqui vindo da Mongólia ou do Japão, a cidade de Lisboa surge como um espaço atlântico e mediterrânico porque é, na Europa, o fim da terra e o princípio do mar. A imagem da sardinha assada no Verão da cidade não passa de um sonho neste tempo de Inverno prolongado com o benefício exclusivo para as albufeiras das barragens de Portugal. «Devia chover só de noite!» - costumo eu dizer a Olega Basyuk pois compreendo a sua tristeza perante as bátegas que se aproxima para cair no meu e seu miradouro de São Pedro de Alcântara. Ali, com o castelo de São Jorge em frente e com a Sé de Lisboa e o rio Tejo à direita, com a cidade das avenidas novas à esquerda, Olega Basyuk pinta Lisboa dentro de uma sardinha. Uma cidade - o mesmo é dizer suas casas, suas pedras, suas gentes que falam e se debruçam nas janelas apenas entreabertas porque continuam à espera do esplendor do Sol. Há nesta sardinha de Olega Basyuk a expressão viva de um tempo suspenso: a cidade de Lisboa espera em alvoroço a época luminosa da sardinha e do seu encontro com o fumo na festa colectiva no meio do arraial de cada Bairro. É uma alegria convocada por um artista que veio da Ucrânia, vive no Chiado e continua rendido à paisagem povoada da cidade que ele escolheu para colorir todos os dias nas suas ruas, praças e miradouros. --

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por José do Carmo Francisco às 08:41


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