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Transporte Sentimental



Sábado, 01.11.14

nelson do nascimento - música entre o sonho e a saudade

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No Museu da Música, no Metro do Alto dos Moínhos, na noite de 31-10-2014, durante sessenta minutos mágicos, a música do sintetizador de Nelson do Nascimento convocou a alegria mais dispersa, límpida e inesperada. Ali estavam dezenas de pessoas que, levadas por uma poderosa intuição, atravessaram a cidade de Lisboa e marcaram encontro no Museu da Música com a alegria. Mais tarde, quando António Macedo o descobrir nas manhãs da Antena Um, já com o CD gravado e colocado no circuito comercial, os espectadores desta noite poderão dizer com orgulho justificado: «Eu estive no Alto dos Moínhos, no Museu da Música, nessa noite, quando o sonho se começou a desenhar!» Não é fácil passar do espanto à enumeração, do júbilo ao inventário, da comoção ao específico. As palavras são sempre pobres perante o esplendor das sílabas musicais mas esta noite, ouvindo a música de Nelson do Nascimento num lugar mágico por cima dos comboios de todos os dias, com gente apressada e dividida entre compromissos e convenções, lembrei outro comboio que há 55 anos vinha com carvão de Rio Maior para o Vale de Santarém. A composição de via reduzida encheu de magia a minha infância com o seu ritual: um homem de fato de macaco azul fechava a estrada entre Santarém e o Cartaxo com uma cancela vermelha. O carvão de Rio Maior servia para a produção de briquetes para as grandes locomotivas da CP. Nelson do Nascimento trouxe até aos felizardos desta noite a música que nasce no meio da neve dos Alpes para repousar na fogueira do canto de todas as casas da montanha francesa. Talvez o carvão seja o mesmo, talvez o fogo dos Alpes seja a réplica hoje do velho carvão de Rio Maior no pequeno comboio a caminho do Vale de Santarém. Talvez Camilo Castelo Branco tenha estado incógnito num dos lugares do auditório. Ele que nasceu na Rua da Rosa em 1825 e morreu em 1890 em São Miguel de Seide, poderia ter dito por escrito e por extenso: «A música de Nelson do Nascimento não tem presente: ou é sonho ou saudade». Pela minha parte atrevo-me a concluir: mais do que música, nasce aqui uma teimosa alegria convocada no silêncio do Museu e no espanto dos espectadores porque estas partituras ligam de novo dois Mundos separados pela distância, pelo esquecimento e pela morte. --

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por José do Carmo Francisco às 08:57


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