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Transporte Sentimental



Domingo, 19.10.14

foi bom 48 anos depois, só faltou regressar ao bom retiro

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Acabo de chegar a Lisboa e sento-me em frente a um computador para escrever sobre o dia de hoje na Quinta do Coração. Bela escolha pois de um assunto de coração de trata. Fui feliz de novo como tinha sido entre 1961 e 1966 na velha Escola Industrial e Comercial de VFX. Só faltou regressar ao Bom Retiro mas era impossível; o meu Bom Retiro já não existe e os blocos de cimento nem me deixaram descobrir onde foi o café do Birra e o Colégio Sousa Martins. Fui feliz porque fiquei numa mesa com a professora Maria Elisa a quem devo tudo o que sei de Francês - ainda hoje faço um figurão… Na minha esquerda ficou o meu amigo Arnaldo Ribeiro e a seu lado o Arnaldo Silva; à direita tinha o Granjo e na mesa ao lado a Veleda que foi minha explicadora e a quem muito devo. Descobri no meio da confusão feliz daquele almoço o Paplicas que está na mesma e parece nunca ter saído daquela fotografia (três rapazes e oito raparigas) que tirámos um dia no Jardim de VFX perto de um barco de nome «Gil Conde». Ouvi algumas palmas para o meu «poema da Rua Direita» mas saí da sala por já não aguentar mais estar sentado. Os meus pobres joelhos não permitem a tortura. O meu glaucoma não aceita viagens no lusco-fusco mas antes de sair ainda ouvi uma espantosa massa sonora vinda do acordeão de João Barradas. Natural do Porto Alto este jovem músico foi um ponto alto na festa da intensa nostalgia de todos nós. Toda a festa é um intervalo na rotina cinzenta do quotidiano mas a música é outro nível dentro do encontro. Um ponto mais alto porque é outra linguagem, perfeita, completa, altíssima nas suas coordenadas. João Barradas é um artista superior; o nosso aplauso é também um obrigado. Obrigado fica toda a equipa de amigo Barata Mendes, todos incansáveis, a fazer outra festa. Porque «os mortos empurram os vivos». --

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por José do Carmo Francisco às 19:09

Domingo, 19.10.14

«um pouco acima da miséria» de amadeu baptista

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Prémio de Poesia «Cidade de Ourense» em 2013, este livro de 99 páginas e 27 poemas é uma longa reflexão de Amadeu Baptista (n.1953) sobre a Vida, a Morte e o Mundo – entendido por «Mundo» um verso da página 64: «religião, história, lógica, razão, honra ou justiça». Basta um verso da página 77 para perceber o alcance da mensagem. Erguendo a voz como se fosse o poeta Nazim Hikmet, Amadeu Baptista, que publica regularmente poesia desde 1982 («As passagens secretas»), afirma - «serei poeta continuadamente» - depois de no verso anterior ter definido Ataturk: «de cabo-de-guerra a paxá, Mustafá Kamal será Ataturk /herói dos Dardanelos, pai dos turcos, genocida dos arménios». De modo hábil, o autor inventa no poema sobre Nelson Mandela o que poderia ter sido a sua fala ao sair da prisão em Robben Island: «Não sei se na generosidade o acaso existe, / mas tenho para mim que foi bondosa a vida / que me coube viver, tão cheia de obstáculos / e dissabores, tão dentro dos covais que só a luz / poderia enfim surgir no termo da jornada em que inicio / uma outra caminhada sobre a qual agora me ergo, / por um planalto de cânticos / um sortilégio de irmãos / uma savana de rosas.» De poema em poema, há no livro uma revisitação aos vários tempos da Guerra e da Paz, do Mundo e dos Homens, há gente que mandou matar (Rasputine, Hitler, Trotsky, Mussolini, Lumumba) mas, nas sucessivas máscaras convocadas, o ponto alto está na máscara do próprio poeta. Começa numa adversativa: «A soletrar um verso, não obstante / os centros comerciais e os bancos ingleses / vem a máscara de novo à cena / dizer que a vergonha engendra mais vergonha». Mas conclui afirmando: «A máscara do amor: a secreta paisagem / que nos traz aqui em busca da nossa própria máscara. /Adeus penumbra e imensidão de lágrimas / cabe ao poeta a máscara da ternura». Escrito para António José Queiroz, dedicado à memória de Aristides de Sousa Mendes e abrindo com uma citação de Manuel António Pina, este é um livro de excepcional qualidade poética a partir de uma ideia insólita, inesperada e inovadora. (Editora: & etc, Capa: Alex Gozblau) --

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por José do Carmo Francisco às 08:28


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