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Transporte Sentimental



Segunda-feira, 17.06.13

foram duas semanas noutra cidade

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Algures entre Greenwich e Lewisham - sobre um quadro de Fiona Bell Currie
(direitos reservados)
Escrevo já em Lisboa esta memória londrina da viagem entre 22 de Maio e 5
de Junho. Passa por mim a médica que me convenceu a fazer a viagem sem
complexos. Assinou um documento num inglês tão escorreito que até foi
elogiado na alfândega do aeroporto de Gatwick. Tudo correu bem nas viagens
tanto à ida como à volta. Por isso esta crónica é também um discreto
«obrigado!» à minha médica diabetologista. Porque foi dela o empurrão para
me decidir: ter uma doença não significa ficar privado de viajar. Um
simples gesto, um olhar decidido, uma palavra oportuna; tudo se resolveu
naquela hora. Devo à minha médica estas duas semanas noutra cidade, os
passeios com os meus netos no jardim de Greenwich, as compras no cento
comercial de Lewisham, o parque infantil do Hyde Park, os comboios
miniatura em Falconwood, o bulício festivo de Convent Garden e o desfila
das mulheres bonitas em Carnaby Street, lugar antigo de onde vinham as
coisas novas para os Porfírios. Obrigado por tudo isso, doutora.
Foi em Londres que soube do resultado do jogo do Benfica com o Vitória de
Guimarães. O jornal The Guardian gasta apenas três linhas com o caso («Taça
de Portugal Final Benfica,1- Vitória Guimarães, 2») na sua edição de
27-5-2013 numa discreta página interior ao lado de um simples «Lazio, 1
– Roma, 0». Em 2005 tinha sido o Sporting com duas derrotas em apenas
uma semana. Uma foi para ti, a outra com amor. Porque Wagner Love era um
brasuca de trancinhas que jogava no clube moscovita vencedor da Taça UEFA.
Em 2013 foi o ano das águias: campeonato para o F.C.Porto, Taça da Europa
para o Chelsea, Taça de Portugal para o Guimarães. O dizia o outro que o
PIB português até aumentava com as vitórias do Benfica.
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 17:50

Domingo, 16.06.13

entre santa catarina e a rua dos fanqueiros

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Da Filarmónica Catarinense à Fabula Urbis em Lisboa
A livraria Fabula Urbis marcou para o dia 15-6-2013 a conversa do seu Clube de
Leitores sobre o poema «O sentimento dum Ocidental» de Cesário Verde com o
convidado Francisco Parreira. De facto Cesário Verde (1855-1886) recorda neste
seu poema o poeta Luís de Camões que é o primeiro grande poeta do Mundo a
viajar da Europa para a Ásia. Não por acaso o poema surge numa edição especial
do «Jornal de Viagens» do dia 10 de Junho de 1880 dedicado a Camões e a
Portugal. Cesário Verde tinha visto algum escândalo literário a rodear o seu
poema «Esplêndida» publicado com apenas 19 anos. Saber a razão que levou
Cesário Verde a dedicar o poema a Guerra Junqueiro é um mistério mas já não
será tão misterioso ligar o seu verso «a Imprensa vale um desdém solene» ao
facto de no seu tempo o poeta português mais popular ser Cláudio Nunes que hoje
ninguém conhece. O eterno problema entre o pó e a posteridade. Mas este poema
ficará como um exemplo claro de «epopeia breve e moderna» num tempo em que já
não havia lugar para as epopeias clássicas. A razão de ser para a foto da
Filarmónica Catarinense é muito simples: foi em Santa Catarina que escrevi o
livro «Transporte Sentimental» que é uma homenagem ao poema «O sentimento dum
Ocidental» de Cesário Verde. Para mim as viagens da Filarmónica da minha terra
nos dias de festa, nas manhãs de peditório antes da procissão da tarde, lembram
as deambulações do poeta algures entre Santa Apolónia e o Largo das Duas
Igrejas, passando pelo Aljube e pelas Cruzes da Sé. Lembro que Jaime Rocha
publicou um livro com o título de «A perfeição das coisas» além do conhecido «O
ressentimento dum Ocidental» de Henrique Segurado. Tem tudo a ver. Alguém
quererá ver professores de Latim a pedir às esquinas? Talvez seja assim.
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 14:48

Sexta-feira, 14.06.13

outras leituras de 2008 - de 1896 a 1951 um olhar diferente

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«Portugal no Mercure de France» de Philéas Lebesgue

Com tradução e coordenação de Madalena Carretero Cruz e Liberto Cruz, este
volume de 707 páginas regista as intervenções do grande lusófilo Philéas
Lebesgue que, entre 1896 e 1951, escreveu na revista Mercure de France sobre
livros e autores portugueses. A revista incluía rubricas tão diversas como
História, Arqueologia, Literatura, Museus, Questões Coloniais, Militares e
Marítimas, Medicina, Teatro e Viagens. Philéas Lebesgue, que colaborou com mais
de 1.600 artigos em 232 revistas europeias, tinha um conhecimento profundo da
nossa literatura e podia garantir: «Uma literatura que possui mestres do estilo
e do pensamento como Raul Brandão e Teixeira Gomes, romancistas jovens e
vigorosos do valor de Aquilino Ribeiro, ensaístas e filósofos como António
Sérgio e Raul Proença, historiadores como Jaime Cortesão, pode marchar de par
com não importa qualquer outra no mundo.» Conhecia também o Povo e podia
afirmar que «Se Portugal pôde ficar um povo culto, mau grado o número
considerável de iletrados, deve-o ao seu admirável folclore lírico sobre o qual
os novos poetas quiseram enxertar a sua inspiração.» No regicídio de Fevereiro
de 1908 escreveu: «Portugal é tão pequeno, tão à parte, que não nos convencemos
das repercussões europeias accionadas pelas suas próprias convulsões.» Fiquemos
por fim com a sua ideia de saudade: «A saudade portuguesa é ao mesmo tempo
desejo e recordação, aspiração e queixume. Está tão voltada para o passado como
para o futuro.»
(Edição: Roma Editora, prefácio: Jean-Michel Massa, Capa: Albuquerque & Bate)
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 22:41

Sexta-feira, 14.06.13

outras leituras de 2008 - um dicionário de «a» a «z»

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«O Erotismo» de Luís N. Viana

Organizado como um verdadeiro dicionário de «A» a «Z» (ou seja de «Abstinência»
a «Zoofilia») este volume tem como título completo «O Erotismo como
representação na arte e significado na medicina» e é ilustrado com um conjunto
de gravuras antigas de artistas diversos desde o século XVI ao século XX.
Vejamos a título der exemplo a entrada para «Sedução» – Sedução é a arte
de aparecer a outrem de modo atraente. Um sedutor como Casanova não se limitava
só a discursos sedutores, lisonjas e galanterias: tratava-se também de manter
promessas. No entanto, de todas as mulheres que amou e tão depressa as
abandonou, quase nenhuma ficou zangada com ele e a maior parte delas pensou
antes nas horas de amor com ele passadas. A mulher seduz o homem por outros
processos, mais por uma aparência coquette do que por qualquer acção, por uma
exposição semioculta dos seus estímulos ou conduzindo a uma situação que faça
esquecer a reflexão e as inibições. A sua sedução também se aplica mais a uma
aventura erótica do que a uma relação amorosa.»
(Editora: Padrões Culturais, Capa: Mário Andrade sobre gravura de Boucher)
José do Carmo Franc
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por José do Carmo Francisco às 22:37

Sexta-feira, 14.06.13

outras leituras de 2008 - iren flunser pimentel

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«A história da PIDE» de Irene Flunser Pimentel

Este trabalho é dedicado a Maria Ângela Vidal e Campos e Maria Fernanda de
Paiva Tomás, as duas mulheres que, durante mais tempo permaneceram presas
pela polícia política. A PIDE foi criada em 1945 no seguimento da
actividade da PVDE (fundada em 1933) e deu origem em 1969 à DGS –
três nomes para uma mesma sinistra tarefa: destruir a oposição organizada
contra o Estado Novo. Este trabalho de 575 páginas desvenda o que foi a
PIDE, a sua estrutura e os seus métodos: vigilância, captura,
interrogatório, investigação e instrução de processos. Vejamos em breve
nota o que no livro consta sobre o Padre Felicidade Alves: «Em 1965 a PIDE
informou Salazar de que, na sua homilia proferida na Igreja dos Jerónimos,
em 17 de Janeiro, o reverendo José Felicidade Alves defendera a teoria
evolucionista, terminando com uma crítica às relações entre o Estado e a
Igreja em Portugal. Disse ainda a PIDE que tinha sido feita a gravação
integral desta homilia, prometendo que continuaria a gravar as missas desse
sacerdote. Diferentemente do caso do bispo do Porto, em que Salazar se
envolveu directamente mas em que o papel ambíguo de Cerejeira foi sobretudo
de silêncio, o caso do padre Felicidade Alves teve a intervenção deste
último, que acabou por emitir sobre ele o decreto de remoção e de suspensão
a divinis das funções sacerdotais. No entanto o padre Felicidade Alves
contou mais tarde que apenas começou a ser alvo da repressão da PIDE/DGS
durante o governo de Marcelo Caetano.»
(Editora: Círculo de Leitores/Temas e Debates, Capa: Rochinha Diogo)
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 22:24

Quinta-feira, 13.06.13

nem sempre havia lagosta na pensão morais

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Ao saber que um amigo prepara um livro sobre a Ericeira, uma espécie de
fotobiografia, lembrei-me logo da escritora madrilena Marta Lopez Vilar
(n.1978) que no seu blog «labirinto de papel» (como Maria Nefeli) tem no dia
18-11-2008 uma bela fotografia de um banco da Ericeira frente ao mar. No livro
«Salazar Portugal e o Holocausto» de Irene Pimentel e Cláudia Ninhos, a
Ericeira surge referida por exemplo nas páginas 456 e 458 além da 467 onde se
referem as núpcias de Hans Leinung com uma refugiada Ursula Ader de seu nome,
casamento que se realizou na Ericeira. O movimento de estrangeiros em pensões
da Ericeira entre 1940 e 1945 foi o seguinte: 22, 31, 22, 34, 11 e 8
respectivamente. Hans era cunhado de Herbert August que chegou a Portugal em
1936 no navio «Monte Olivia» com dez marcos no bolso, uma bicicleta e uma
máquina de costura.
A escritora Regina Louro (n. 1948) reside na Ericeira tal como residiram outros
autores: Fernanda Durão (n.1944), Inês Pedrosa (n.1962), Joaquim Lagoeiro
(1918-2011) e João de Melo (n.1949). Nos anos 60 do século XX o escritor José
Cardoso Pires (1925-1998) viveu na Ericeira onde terá escrito parte dos seus
livros; a casa onde habitou está devidamente assinalada. Também Ruben A.
(1920-1975) foi assíduo das pantagruélicas almoçaradas na Pensão Morais. O seu
livro «O Mundo à minha procura» refere essas idas de Cascais à Ericeira. Entre
os amigos mais chegados corria uma história: um dia, já cansado de ouvir «Hoje
não há», «Havia mas já acabou» quando perguntava pela famosa lagosta da casa,
Ruben A. terá sugerido a sorrir ao senhor Morais: Mude o letreiro da casa! Em
vez de «Pensão Morais – há sempre lagosta» passa a ser «Pensão Lagosta
– há sempre Morais».
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 13:06

Terça-feira, 11.06.13

a bomba matou mais de cem mil pessoas

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«Hiroshima» de John Hersey
São famosas as primeiras linhas deste livro de John Hersey (1914-1993) que foi
publicado em 1946 como reportagem na revista The New Yorker: «Exactamente às
oito horas e quinze minutos da manhã do dia 6 de Agosto de 1945, hora japonesa,
no momento em que a bomba atómica deflagrava sobre Hiroshima, a menina Toshiko
Sasaki, funcionária do departamento de pessoal da Fábrica de Estanho do Leste
Asiático, tinha acabado de se sentar à secretária no escritório e virava a
cabeça para falar com a colega do lado». São seis as personagens cuja vida
naquele momento (6-8-1945) é recuperada no trabalho do jornalista e escritor
americano: a menina Toshiko Sasaki, o Dr. Masakasu Fujii, a senhora Hatsuio
Nakamura, o padre Wilhelm Kleinsorge, o Dr. Terufumi Sasaki e o reverendo
Kiioshi Tanimoto. A bomba atómica matou cem mil pessoas e estas seis
contavam-se entre os sobreviventes.
Os japoneses evitavam chamar «sobreviventes» aos que viveram os bombardeamentos
de Hiroshima e Nagasaki, por isso passaram a chamar-lhe «hibakusha» que
significa literalmente pessoas afectadas pela explosão. Num livro com 220
páginas é difícil destacar dois pontos mas as palavras de Eisenhower num texto
de 1963 são espantosas: «O Japão tentava precisamente nessa altura render-se
sem perder por completo a face. Não era necessário atingir o país com essa
coisa abominável». Outro ponto é a conversa matinal do Dr. Sasaki com a sua
equipa da clínica: «Não façam do dinheiro o principal objectivo do vosso
trabalho; cumpram o vosso dever para como os doentes em primeiro lugar e pensem
só depois no dinheiro; a nossa vida é curta e não vivemos duas vezes; o
turbilhão levanta as folhas e fá-las girar mas depois deixa-as cair e estas
formam um monte.»
Para quem acredita que o jornalismo é uma disciplina da literatura, este é um
livro a não perder. Para quem ainda não acredita este é também um livro a não
perder, pois a sua leitura vai alterar tudo e o leitor vai passar a acreditar.
(Editora: Antígona, Tradução: Fernando Gonçalves, Revisão: Júlio Henriques)
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 20:15

Segunda-feira, 10.06.13

a sá da costa celebra cem anos de vida

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No Chiado - Sá da Costa uma livraria com cem anos
Fez cem anos em 10 de Junho. Criada em 1913, tem resistido a todas as
crises, a maior das quais foi ter sido sacrificada a uma falência
fraudulenta que os Tribunais irão julgar. Os livreiros que estão há dois
anos a aguentar a casa são Noémia Batalha, Susana Pires, Pedro Oliveira,
Salomé Gonçalves e António Esteves. Junta-se o pintor residente Rouslam
Botiev e o etnógrafo João Coimbra. O furacão apanhou também as editoras
Portugália e Cavalo de Ferro. Num tempo difícil para as livrarias da zona
Chiado-Bairro Alto, desapareceram nos últimos tempos a Portugal, a
Guimarães, a Barateira, a Petrony, a Bocage, a Camões e a Biblarte. Outras
casas como a Lello, a Olisipo e a Artes e Letras correm o risco de fechar.
Fazer 100 anos é obra.
A festa foi bonita, a casa encheu-se de editores, jornalistas, livreiros,
agentes culturais diversos, amigos da casa e membros da família Sá da
Costa. Todos cantaram em coro afinado o parabéns a você! da praxe. Houve
bolo de aniversário, bebidas, pastéis de nata e pastelinhos variados. E
champanhe francês. O manifesto lido na festa dos cem anos termina assim:
«mais de setecentos dias já vão contados desde que os responsáveis
financeiros viraram costas. E ainda cá estamos, intervenientes e
testemunhas. É certo que não sabemos onde estaremos amanhã. Mas hoje, neste
dia em que celebramos o centenário de uma casa de cultura que tem nobiitado
o seu mister e contribuído para que a Cidade seja mais do que um conjunto
de prédios, ruas e cadáveres adiados, sentimo-nos honrados por termos
conseguido puxar a infausta situação até ao momento da própria efeméride.
Sem estes dois anos de perseverança não estaríamos hoje aqui, mantendo a
memória da Sá da Costa como realidade viva ao invés daqueles que a querem
estátua inerte para um qualquer museu de cera».
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 21:50

Domingo, 09.06.13

outras leituras de 2008 - Camilo Castelo Branco

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«Os Narcóticos» (volume 1) de Camilo Castelo Branco

A partir de dois livros de Fernando Palha editados em 1882, Camilo Castelo
Branco revisita alguns episódios da História de Portugal. O título «Narcóticos»
tem a ver com as tentativas de envenenamento de D. João II, diversas desde 1491
até à morte. Camilo recorda o rei («homicida traiçoeiro, implacável destruidor
dos seus parentes, o primeiro que em Portugal queimou hebreus expulsos de
Castela, promotor do extermínio de oitenta vítimas ilustres, a veneno e a
punhal»), não se mostra surpreendido pela incorrupção do seu cadáver («faltava
a ponta do nariz o que não quer dizer nada em matéria de santidade») e avança
com uma explicação: «emprega-se o sublimado corrosivo e o cloreto de zinco para
embalsamar cadáveres humanos por possuírem essas substâncias as propriedades
conservadoras do arsénico.» Camilo aproxima a actualidade europeia (1882) ao
passado português (1536) no que respeita ao problema judaico: «O mesmo era
matar judeus não processados, como em tempo de D. João II, ou desterrá-los
roubados nos bens e nos filhos como em tempo de D. Manuel, ou rebanhá-los em
massa e lavá-los daí processionalmente aos suplícios públicos das praças.»
Completam o volume a novela «O senhor ministro» e os textos «A viúva do poeta
Ovídio», «Silva Pinto e a sua obra», «Ideias de D. João VI» e «Camões e os
sapateiros» Na novela, Amália ouve do tio padre esta frase sobre os sonhos de
literato do seu herói: «os melhores poetas de Portugal mendigaram mas os que
eram pobres tiveram o bom juízo de não casarem – Camões Bocage,
Tolentino, etc.»
(Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: Fernando Martins, Revisão: António Bárcia)
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 15:06

Domingo, 09.06.13

outras leituras de 2008

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«Se me comovesse o amor» de Francisco José Viegas

Neste décimo livro de poemas, Francisco José Viegas (Foz Côa, 1962) retoma
a melancolia e as viagens. Não apenas as viagens na geografia (Buenos
Aires, Paris, Israel, Frankfurt, Antuérpia, Caracas) mas também a viagem
que toda a vida acaba por ser: «Se me comovesse o amor como me comove / a
morte dos que amei, eu viveria feliz.» A morte está sempre presente. Seja
de uma tia («Ela despedia-se da vida, era a Páscoa. Melhor: as urzes /
floridas ainda, sobrevivendo – um vento, as matérias / do medo,
colinas de pinheiros, alegorias, orações») seja de um amigo: «São as mais
estranhas árvores, as que descem até às raízes; / pela última vez se
visitam, antes que venha uma nuvem / ou que os animais te despertem a meio
da noite.» O poema responde a uma pergunta: «Os pais dos teus pais, os
filhos dos teus filhos / é isto uma família? O que separa o futuro daquele
lugar / onde os teus mortos repousam? Avós adormeceram, / abandonados em
campas coberta de terra e xisto». Mas também discute a sua própria
natureza: «Alguém lê o que escreves, triste consolação / pálida alegria
caindo sobre a tarde das coisas. / Cada palavra é um resumo – e, em
cada palavra, quanto deixas de teu?» Entre a fragilidade do amor e a
certeza da morte, a literatura pode ser uma salvação: «Séculos de
literatura fizeram de nós apenas isso / passageiros obedientes, leitores
compulsivos / geógrafos errantes que desconhecem os nomes / entre as
montanhas, o que fica no meio das árvores. / Não vale muito. A vida
interrompe as páginas dos livros / como entende, transporta nuvens espessas
/ ignora os pardais nas margens dos bosques.»
(Editora: Quasi - Famalicão, Foto: Steve Woods)
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 15:00



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