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Transporte Sentimental



Quinta-feira, 06.06.13

sair da ilha é a pior maneira de ficar nela

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Duas datas e um retrato para Daniel de Sá
Deus está em toda a parte e também na Maia (onde Danlel de Sá nasceu) como já
tinha estado em Santa Maria nos primeiros anos deste sedentário rural com o
porte altivo de um catedrático magistral dando lições de humildade como quem
pede desculpa pelo peso da sua sabedoria. Deus está em toda a parte e também em
Londres onde me chegaram notícias em cima da hora sobre a morte de Daniel de
Sá. 1944-2013. É assim que nós, jornalistas, fazemos as notas pessoais de
alguém que, mesmo não morrendo para nós, acaba por morrer no registo civil.
Depois das datas, surge um retrato aflito. O jovem poeta Rui Almeida e o poeta
de obra consolidada Álamo Oliveira confirmam via telemóvel o óbvio que já
corria no Facebook e nos Blogs mas eu não estava. Estava nas ruas de
Blackheath, algures entre Lewisham e Greenwich mas longe de São Miguel, dos
Romeiros e do Senhor Santo Cristo. O mesmo é dizer longe da Maia onde num dia
de 1992 a minha família ficou presa ao gesto de um homem cordial, sedentário e
rural que teve tempo para tudo até para nos pagar o almoço sem nós darmos por
isso. E o Mundo inteiro estava ali. Deus está em toda a parte e também em
Londres, o lugar mas improvável para as lágrimas de um amigo que foi também
leitor de crónicas, ensaios, romances, teatro, novelas e contos. Até em inglês
Daniel de Sá escrevia bem, vejo num livro em Londres a dedicatória: «This
islands are not my islands, this islands are a gift of God to the Humanity».
Como redactor da Revista Ler escolhi em Agosto passado os 25 livros dos últimos
25 anos e lá está o seu «Ilha grande fechada» mas já não vou a tempo de lho
dizer. Espero que a lista saia para o mês que vem. Assim terei mais certeza de
que Deus está em toda a parte. Porque Deus está em toda a parte mas demorou
muito mais tempo nas ilhas dos Açores.
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 22:16

Quinta-feira, 06.06.13

uma cidade de cortiça em greenwich market

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Abriu esta semana uma nova loja no mercado de Greenwich em Londres. Vende
cortiça portuguesa e chama-se «Corkville». Fica num dos cantos do lado interior
do mercado. Ali há de tudo um pouco: jóias, sapatos, porta-moedas, braceletes,
malas, carteiras, chapéus, bolsas…
Conheço este mercado desde 1976 e é a primeira vez que descubro uma loja
portuguesa com produtos de Portugal. Gosto muito de mercados e em Londres este
de Greenwich é um dos meus favoritos ao lado do Spitalfileds (em Brick Lane) e
do Borouhg Market (em London Bridge). Gosto e frequento – ainda agora
trouxe de Greenwich uma imagem do Tintin para o meu amigo José Vilela da
editora Bonecos Rebeldes. Voltando à «Corkville» os jovens que passem pelo
mercado de Greenwich, muitos deles em grupo para ver o Cutty Sark, não sabem
nem fazem ideia do que é a cortiça. As pessoas de alguma idade ainda sabem que
existe a cortiça mas os jovens não percebem e alguns julgam tratar-se de algo
parecido com plástico. É assim como os alunos finalistas de História na
Universidade de Chicago que disseram ao escritor argentino Jorge Luís Borges
não fazerem ideia de quem foi Napoleão. Estes sabem mexer em computadores,
passam horas frente ao televisor mas usam um reduzidíssimo vocabulário e quase
nada sabem do Mundo que os rodeia. Olham para os livros em particular como quem
olha para a sabedoria em geral – criando uma distância de confronto,
alheamento e hostilidade. Na montra da loja «Corkville» o olhar veloz, inquieto
e inexpressivo dos jovens em visita desloca-se para o outro lado do mercado. As
fardas azuis dão ao seu grupo um aspecto de nuvem nas margens do Tamisa. Se não
fossem os mais velhos e os turistas de todo o Mundo quase não havia gente na
cidade da cortiça em Greenwich Market.
José do Carmo Francisco
--

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por José do Carmo Francisco às 19:57


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