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Transporte Sentimental



Domingo, 19.05.13

um imenso adeus para cruz dos santos

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«Hoje jogo eu!» – ou recordando Cruz dos Santos
A notícia má foi uma pancada com tanto de dolorosa como de inesperada
dentro do meu pequeno automóvel. Foi a Antena Um. Eu vinha de um funeral de
uma prima – um daqueles com orações em voz alta, homens de capa,
velas e cruzes a abrir o cortejo. Não estava preparado para saber da morte
(relativa) de Cruz dos Santos. Ele é o último romântico num ofício mal
olhado porque feito de quimeras, de sonhos e de ilusões. Eu vi cair os
históricos de A BOLA: Carlos Pinhão, Vítor Santos, Carlos Miranda, Alfredo
Farinha, Aurélio Márcio, Homero Serpa. Cruz dos Santos era o romântico,
aquele que, de todos os jornalistas do quadro, foi o último a fazer a
reportagem de uma final da Taça dos Campeões. Eu falava ao telefone, horas
e hora, sobre o futebol e os seus problemas incluindo a «arbitragem».
Apesar das diferenças de idade e de tudo, estávamos quase sempre de acordo.
Quando regressava da visita anual a Ana, Ian, Tomás e Lucas tínhamos
conversas longas sobre a força financeira dos magnatas que compram clubes
de futebol ingleses, os transformam em sociedades comerciais mas deixam
ficar o nome inicial. Falávamos de Eusébio e da sua peculiar maneira de ver
as coisas: tinha mais facilidade em falar mal dos homens do clube de
Lourenço Marques que fez dele um jogador de futebol do que dos directores
do clube de Lisboa que se recusaram a recebê-lo quando veio da América,
obrigando-o a acabar a carreira em Aveiro e em Tomar. Cruz dos Santos era a
pessoa que mais sabia sobre Eusébio desde a sua chegada a Lisboa em 1961.
Sobre a desmemória do jogador, Cruz dos Santos afirmou: «Não ligue, ele
está a ser simpático para com o terceiro anel!» Tinha razão, sempre.
Aprendi muito com Cruz dos Santos nessas conversas ao telefone. A conversa
sobre a maldição de Béla Guttmann já não vai a tempo.
José do Carmo Francisco
--

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por José do Carmo Francisco às 16:59

Domingo, 19.05.13

os meninos de palhavã foram reconhecidos nas caldas da rainha

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«A redenção das águas» de Carlos Querido
Com o subtítulo de «As peregrinações de D. João V à vila das Caldas», este
é o terceiro volume publicado de Carlos Querido (n. 1956) depois de «Salir
d´Outrora» (2007) e de «Praça da Fruta» (2009). As 219 páginas não
registam apenas as viagens de D. João V à vila das Caldas para alívio do
seu sofrimento entre 1742 e 1750. O livro tem esse pano de fundo real («não
haverá maior solidão do que o poder absoluto»)mas existe nele um a espécie
de filtro no olhar dos narradores – Pedro e Sara.
Pedro, filho de um fidalgo e de uma lavadeira, nasceu nas Caldas, foi para
Lisboa e daí partiu para o centro da Europa com o infante D. Manuel, o
irmão do rei D. João V: «Chamo-me Pedro e nasci nas Águas Santas, muito
próximo daqui. Fui ferido na batalha de Timisoara.» Por sua vez Sara é
filha do rei D. João V e de uma criada do Paço: «O meu avô materno estudou
em Coimbra onde tomou ordens mas pediu dispensa quando descobriu que era
mais forte o chamamento do mar.» Pedro («Sou um homem comum») conta a
verdade («leia com paciência; os factos são verdadeiros») mas para Sara
(«Com a minha mãe aprendi piano, recato e solidão») a dura verdade é o rei
só reconhecer como filhos os meninos de Palhavã: D. António, D. Gaspar e D.
José. Não as filhas.
As viagens do rei D. João V são neste livro um pretexto feliz para o autor
nos fazer viajar pelo país que somos: «Cresce na cidade e no reino um vago
sentimento de tristeza e desolação. Há militares a quem não é pago o soldo.
Há operários ao serviço do rei que não recebem o salário devido, para
desespero das famílias». Sem esquecer o Povo que o habita: «Somos um povo
com uma alma religiosa mas sensível e compreensiva perante a tentação da
luxúria.». Nem o rei que o governa (37 anos de pacífico reinado) entre
birras com o Vaticano («gastou 500 mil cruzados na compra do direito a
tomar a hóstia pela sua mão») e as malhas da Inquisição («ao serviço do rei
e não ao serviço de Deus») a quem o narrador não hesita em definir como
«fanáticos que querem travar o movimento do mundo, incluindo a rotação em
volta do Sol».
Tudo termina na vila das Caldas, no lugar onde nasce a narrativa: «Começou
por ser lugar de destino dos deserdados mas as suas águas também curam os
poderosos do reino.» Caldas, outro nome para o paraíso perdido, «esse lugar
onde o mundo parece fazer sentido, porque não se avista nem se sente a
loucura dos homens».
(Editora: Arranha-céus, Capa: Elisabete Gomes, Revisão: Raul Henriques,
Apoio: Câmara Municipal de Caldas da Rainha)
José do Carmo Francisco
--

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por José do Carmo Francisco às 16:56


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