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Transporte Sentimental



Quarta-feira, 15.05.13

há na tua voz o som da ocarina de um pastor

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Crónica para um adeus (à maneira de Fernando Alves)
Há na tua voz o som eterno e profundo da ocarina de um pastor na encosta do
lado do Malhadal, entre a luz da tarde e o peso do silêncio junto à água da
ribeira em suspenso na represa entre a relva e a areia. Tenho muito viva e
presente a memória do som da tua voz nas ruas da cidade, nos autocarros
lentos a caminho de Sete Rios, nas manhãs de chuva e nevoeiro tal como
tenho memórias da pequena ribeira junto à tua casa quando ouvia a água nas
pedras redondas, quando via ao longe o desenho das nuvens cinzentas no Vale
da Vinha quando o sol não chegava às primeiras casas da povoação. Há o
desenho do teu sorriso aberto até ao fim do verde do pinhal, numa espécie
de letra «V» organizada entre os pinheiros em socalcos. Entra nele, nesse
«V», o castanho da caruma que já ninguém recolhe para o laborioso estrume
dos velhos quintais das antigas casas das aldeias. Tenho no meu ouvido o
som da ocarina de um pastor anónimo a cantar a alegria dum encontro onde
nenhuma emboscada pode fazer-me perder as memórias de todas as palavras
ditas a cantar em todas as encostas de todos os pinhais à beira das
ribeiras. Entre a terra e a água, entre a pedra e a luz, entre o pó e a
neblina, o teu olhar abre um caminho novo, uma memória, uma canção onde a
música se junta às palavras para convocar todos os encontros a haver num
futuro próximo. Não se perde o teu olhar. Pelo contrário, vai
multiplicar-se no olhar de todas as tuas meninas que, sendo sobrinhas nos
termos do direito, são também filhas porque o amor tudo envolve, amplia e
modifica no terreno mais sentimental e na geografia mais geral dos
afectos. Como se, no tempo do adeus, as aves desenhassem novas vírgulas
escuras na encosta de um pinhal onde o silêncio mais forte e mais profundo
chega para todos nós ao fim da manhã.
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 23:25

Quarta-feira, 15.05.13

o que é a vida, o que é a morte, o que é o tempo

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«A mulher do legionário» de Carlos Vale Ferraz
Depois da estreia com «Nó cego» (1982) Carlos Vale Ferraz (n.1946) vê publicado
o seu nono livro de ficção, este «A mulher do legionário». A pedra angular da
narrativa é Fernanda, filha de Eduardo Lobo, um homem sobre cujo suicídio os
amigos desconfiam: «não se ia embora sem nos dar conta das razões, sem se
despedir da filha, dos amigos». O casamento de Fernanda com Augusto Torres
levou a criada Rosa a advertir: «O seu casamento, menina, começou com uma
falsidade dele!» mas toda a narrativa surge na voz da irmã Maria de São José,
dando razão a quem no romance reclama a força das mulheres: «As mulheres não
querem esta guerra e não há primeiro-ministro que consiga convencê-las».
Neste livro, escrito a partir das grandes interrogações sociais («o que é a
vida, o que é a morte, o que é o tempo») os sucessivos retratos dos actores
são, de facto, da sociedade a que pertencem. É nela que percebem as
expectativas («Ninguém nasceu para preencher as expectativas dos outros») mas
também a injustiça («só temos uma vida e não a podemos viver como julgamos ter
direito») ou ainda a verdade: «A verdade não é obrigatoriamente uma coisa boa.
Pelo menos pode não trazer notícias agradáveis».
Aqui os portugueses («nunca se regeram pela razão mas pela lógica») continuam a
ser os mesmos: «vamos em peregrinação aos santuários pedir a uma divindade que
faça por nós o que devíamos ser nós a fazer». Mesmo os artistas e as suas
vanguardas são diferentes: «para Eduardo, António Ferro pertencia àquela
geração de jovens, pederastas mais ou menos assumidos, com maior ambição do que
talento, qua faziam acrobacias artísticas para fugir ao trabalho, ao estudo e
ao cumprimento das regras impostas aos cidadãos comuns».
Para além do fresco enorme do País que somos (1908, 1926, 1939-45, 1974), um
pouco como num romance policial, fica a memória de uma mulher que viveu a morte
do pai, da mãe, do filho e do neto mas sempre a lembrar o marido, o legionário:
«Conheci o Augusto num sábado de seca e de gafanhotos! Vinha do colégio, estava
a chegar a casa e encontrei um homem dez anos mais velho do que eu, um sedutor
experiente. Ele pertencia ao grupo dos impostores, dos que representam papéis
que não são os deles!»
(Editora: Casa das Letras, Capa: Neusa Dias, Revisão: Ayala Monteiro)
José do Carmo Francisco
--

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por José do Carmo Francisco às 16:30


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