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Transporte Sentimental



Quinta-feira, 10.01.13

outras leituras de 2008

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«Angústia fragmentária» de Luísa Santos

A partir da memória de uma infância vivida em clima de repressão familiar («Não
quero que te dês com rapazes. Uma menina deve dar-se apenas com meninas e da
sua idade. Não me contraries nunca, eu sou o teu pai.») e de uma vocação
contrariada («Pai, quero ser bailarina. Pai, porque não posso?») surge uma
adolescência povoada pela solidão e pela morte desejada: «Sinto-me só, sem
ninguém ao fim de quinze anos de existência. A solução é matar-me.» Muito tempo
depois da crise dos quinze anos a problemática é a mesma «apenas algumas
palavras mudaram» na relação da jovem (hoje mulher) com a sociedade: «Tudo é
material. Primeiro são as notas e a competição desenfreada na Escola. Depois o
casamento, institucionalização hipócrita da vida a dois e do juro bonificado.
Na profissão rodeia-nos a falsidade, a inveja sobretudo. Vivemos mergulhados
numa cultura de maledicência e ciúme doentio.» Depois de perguntar num
fragmento «Porque estou sozinha?!» a autora responde noutro fragmento: «Tenho
mais medo da solidão dos outros do que da minha. Conheço bem o meu deserto,
aprendi a orientar-me nele e hoje anseio pelo seu silêncio.» Mais à frente
constata noutro fragmento a mesma solidão: «Fui beber um café comigo ao fim da
tarde». E por fim surge a moral desta história desenhada em fragmentos de
angústia: «Nada mais ilusório do que pensarmos que podemos despojar-nos tão
facilmente do baú das recordações.»
(Editora: Bico de Lacre, Capa: Roberto Medeiros, Foto: Henrique Coelho,
Ilustrações: Artur Campos)
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 11:53

Quarta-feira, 09.01.13

outras leituras de 2008

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«O nosso reino» de Valter Hugo Mãe

Por oposição ao reino de Deus («o seu reino não terá fim») este reino do
narrador (Benjamim) é o reino dos Homens, uma vila de pescadores: «aos
domingos, quando descíamos para a missa e o caminho até ao centro da vila
se enchia de vizinhos, parecíamos todos felizes». Na vila estão o padre
Filipe (que assustava), o senhor Luís (sacristão), o senhor Hegarty (que
cantava) e o Carlos que veio da guerra: «em Angola tudo podia acontecer,
porque os lugares eram ermos, esquecidos de tudo e de todos.» Havia também
a Dona Darci («fugiu de Moçambique porque uma velha branca e misteriosa lhe
rogou uma praga») e os tios de França: «eram dois, o rio João e o tio Saúl,
mais velhos que a minha mãe e a minha tia Cândida, estavam em França como
se estivessem mortos, excepto quando foi da herança». Benjamim queria ser
santo («a vontade de me manter santo não me assistia perante todos da mesma
forma, alguns conseguiam destruir-me por dentro a esperança de os salvar».
Surge inesperado o «25 de Abril» na escola primária: «a professora Blandina
explicou que ontem os senhores que mandavam no país foram mandados embora.
Nessa altura muitas pessoas pensaram que as liberdades eram maiores, muito
maiores, do que o esperado.» A professora queria motivar o narrador para a
realidade: «parecia querer dizer que na minha vida tudo era mentira mas não
era exactamente.» Entre verdade e mentira, entre morte e vida, vence a
vida: «No dia seguinte a vila acordou cheia de milagres, as pessoa vieram à
ruas , quem não andava corria, quem não via pintava de todas as cores, quem
emudecera cantava como os pássaros e o sol abrira em pleno Inverno e não
havia chuva nem frio».
(Editora: Temas e Debates, Capa: Rochinha Diogo sobre óleo de Cruzeiro
Seixas)
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 18:02

Terça-feira, 08.01.13

santa catarina no roteiro cultural de alcobaça

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Mais um livro que fala da nossa terra - Santa Catarina
O mapa aqui reproduzido vem dentro do livro que tem como título «Roteiro
Cultural da Região de Alcobaça» e por subtítulo «A Oeste da Serra dos
Candeeiros», uma edição da Câmara Municipal de Alcobaça com coordenação de
Carlos Mendonça da Silva, ilustrações de Jorge Delmar e organização da ADEPA. O
livro é de 2001. Em concreto sobre Santa Catarina vale a pena reler: «Antiga
vila dos Coutos, hoje também pertence ao concelho de Caldas da Rainha. Teve o
primeiro foral em 1333, concedido pelo Abade Frei João Martins e o segundo em
1518, concedido pelo rei D. Manuel I, o chamado Foral Novo. A igreja paroquial
de Santa Catarina é um templo extremamente simples que guarda no interior a
capela do Coração de Jesus, cujas nervuras da abóbada quinhentista têm no
barrete do fecho uma estrela em relevo. A igreja apresenta belas esculturas: S.
Francisco de Assis, Nossa Senhora do Rosário, Senhora da Piedade, todos do
século XVII, Santo António e «Santo com livro», do século XVIII. Quanto à
pintura há a destacar na capela de João Roiz Português, um retábulo figurando o
«Encontro de Santa Ana e S. Joaquim» pintado pelo pintor maneirista Diogo
Teixeira e outras pinturas de Belchior de Matos. Esta vila teve forca e
pelourinho, o qual se encontra no largo da Igreja e conserva os ferros onde se
prendiam os condenados.»
A viagem sugerida pelo livro incluía no seu III circuito os seguintes pontos:
Alcobaça, Capuchos, Évora, Turquel, Benedita, Santa Catarina, Vimeiro e
Alcobaça de novo. O livro em causa é também uma viagem pois não se fica pela
paisagem e procura saber sempre mais sobre o povoamento. Basta pensar que ainda
há pouco tempo na Benedita quando alguém pedia um copo de água davam-nos um
copo de vinho porque a cisterna era para a gente da casa.
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 14:58

Terça-feira, 08.01.13

memórias, afectos e sabores reencontrados em 39 crónicas

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«Sabores da Vida» de Joaquim do Nascimento
Joaquim do Nascimento tem publicado livros sobre a sua terra (Pereiros) e
sobre a Guerra Colonial; com este volume regressa às origens com 39
crónicas à volta de receitas gastronómicas. Um cardápio completo (sopa,
peixe, carne, saladas, doces) também na geografia – Alto Douro,
Algarve, Estremadura. E um elucidário final. Várias são as páginas com
referências culturais: Vermeer (17), Eça (60), Alexandre O´Neill (69),
Manuel Alegre (110), Torga (135), Guerra Junqueiro (153), A Bíblia (161),
Camões (177) ou Fernando Pessoa (181). Aqui a gastronomia é um pretexto
para o autor exercer a ironia: apresenta-se («Os enchidos da Lídia e as
minhas letras são o que de melhor se faz nos Pereiros») e conclui: «umas e
outros à procura de memórias, de afectos e de sabores que o tempo teima em
levar e a que nós nos agarramos para os voltarmos a apresentar, a Lídia
numa mesa farta, eu num livro de memórias que dedico à gente dos Pereiros».
O texto mistura a memória da apanha da azeitona com o sorriso de uma
menina: «Que terá sido feito da Piedade e do sorriso que guardei dela? Sei
que casou numa terra vizinha, guardou gado e fez o queijo, lavou a roupa e
teve filhos, talvez o marido matasse um reixelo pela Páscoa, oxalá que os
netos a façam sorrir neste fim do dia, para que se lhe abram no rosto as
mesmas covinhas que eu vi nele quando tínhamos 10 anos». Passam por aqui
memórias das coisas mais essenciais como o pão, o vinho, o azeite ou o
queijo. Sobre o pão, por exemplo: «pão, pão era mesmo o de centeio, o único
cereal que vingava nas ladeiras dos nossos montes, pele e osso na magreza
de um solo pobre regado pelo suro de muito trabalho». Sobre o vinho, outro
exemplo: «É o sol que faz o vinho, Pedro, disso sabia o meu avô António
Bernardo que fez vinho fino, d´Além Doiro, durante uma vida, na Quinta
dos Canais». Sobre o azeite, outra memória: «O azeite servia para alumiar a
Deus e os mortos também não o dispensavam no seu dia de Novembro mas servia
principalmente para tornar mais gostosa a dieta magra das nossas fragas, o
caldo, as batatas e o pão de centeio; entrava também nos mimos das festas
do Natal e da Páscoa». Ou o queijo: «A Natália continua a fazer queijo uma
ou duas vezes por ano por várias razões – para provar que ainda não
perdeu a mão, porque nunca meterá a boca num cibo que outra pessoa faça e
para saborear uma tijela de soro, açucarado, migado com pão de trigo». Para
concluir, o pó contra a posteridade: «Eu hei-de partir e a Oliveira do Adro
há-de permanecer ali por muitas mais gerações e, um dia, o neto da
Celestina vai ler-lhe o que, sobre ela, escreveu o Joaquim da Senhora
Adelaide».
(Editora: Padrões Culturais, Prefácio: Rui Fiolhais, Paginação: Mário
Andrade)
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 09:26

Quinta-feira, 03.01.13

em 1962 os campinos não usavam telemóvel

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Bom Retiro - Dissertação breve para uma festa de aniversário
A vida é um mistério. Se fosse um negócio os mais ricos compravam a saúde, eram
felizes e prolongavam a vida até ao limite do seu dinheiro. A vida é um
mistério e ainda bem. Nós somos filhos dos homens que nunca foram meninos:
cavadores, marçanos, serralheiros, motoristas, ordenanças de escritório,
criados de lavoura, eles começaram a vida muito cedo entre as praças da jorna
da Estremadura ou do Ribatejo e as sombras pesadas das lojas e dos escritórios
da cidade. O nosso tempo é hoje tempo de memória: um bairro, um tempo e um
lugar nos anos sessenta do século XX. Quando os campinos não usavam telemóvel.
Havia sempre crianças em casa quando chegava o homem do gazcidla e ele acendia
um fósforo para provar que não havia fugas de gás. Não morreu ninguém e estamos
cá para contar mas poderia ter acontecido uma explosão nas casas do Bairro do
Bom Retiro. Havia sempre homens e rapazes a ver o jogo do chinquilho no café do
senhor Jorge nas tardes infinitas de Verão e no som repetido das malhas sobre
os paulitos. E os maços de tabaco «Definitivos» continuam a custar 17 tostões.
Nas manhãs de Domingo, depois da missa do padre Moniz na Paroquial de Vila
Franca, estava sempre gente nova nas bancadas do Campo do Cevadeiro a gritar
pelo «União» e havia lá dentro no pelado rapazes da nossa turma. Por isso as
camisolas tinham dois pesos: o tronco e os sonhos de cada um de nós na Escola e
na Vida.
A vida é um mistério. Estamos aqui e fomos há pouco tempo às Águas Férreas, ao
Senhor da Boa Morte, à Ermida de Alcamé. Fomos a pé, fomos em grupo, fomos na
carroça de um vizinho toda enfeitada com bandeiras e alecrim nos varais e um
pano branco por causa do sol. Fomos e connosco foi o som da água em Santa
Sofia, os golos gritados nos jogos ao lado do café do Birra para mudar aos 6
acabar aos 12, o homem da água sempre a chegar com o auto-tanque municipal à
hora do romance na rádio. Viemos e connosco veio o fervor das orações de quem
pedia em 1962 que a guerra já não chegasse ao nosso tempo de mancebos.
Trouxemos no olhar a força dessa liturgia de palavras, no peito o sol e o pó
das romarias, na boca as canções mais puras e simples como esta quadra que hoje
cito de memória: «Quem é pobre sempre é pobre / quem é pobre nada tem / quem é
rico sempre é rico / e às vezes não é ninguém».
Afinal estas são também outras formas de poema pois em todos os casos (oração,
viagem, canção) as palavras servem para juntar de novo o que o tempo separou, a
noite ajudou a esquecer e a memória veio depositar numa mesa de festa de
aniversário. A vida é um mistério. Não é um negócio. Às vezes no meio do
silêncio, da solidão e da melancolia é possível uma tentativa para decifrar os
mistérios da vida.
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 18:00

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