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Transporte Sentimental



Quinta-feira, 03.01.13

em 1962 os campinos não usavam telemóvel

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Bom Retiro - Dissertação breve para uma festa de aniversário
A vida é um mistério. Se fosse um negócio os mais ricos compravam a saúde, eram
felizes e prolongavam a vida até ao limite do seu dinheiro. A vida é um
mistério e ainda bem. Nós somos filhos dos homens que nunca foram meninos:
cavadores, marçanos, serralheiros, motoristas, ordenanças de escritório,
criados de lavoura, eles começaram a vida muito cedo entre as praças da jorna
da Estremadura ou do Ribatejo e as sombras pesadas das lojas e dos escritórios
da cidade. O nosso tempo é hoje tempo de memória: um bairro, um tempo e um
lugar nos anos sessenta do século XX. Quando os campinos não usavam telemóvel.
Havia sempre crianças em casa quando chegava o homem do gazcidla e ele acendia
um fósforo para provar que não havia fugas de gás. Não morreu ninguém e estamos
cá para contar mas poderia ter acontecido uma explosão nas casas do Bairro do
Bom Retiro. Havia sempre homens e rapazes a ver o jogo do chinquilho no café do
senhor Jorge nas tardes infinitas de Verão e no som repetido das malhas sobre
os paulitos. E os maços de tabaco «Definitivos» continuam a custar 17 tostões.
Nas manhãs de Domingo, depois da missa do padre Moniz na Paroquial de Vila
Franca, estava sempre gente nova nas bancadas do Campo do Cevadeiro a gritar
pelo «União» e havia lá dentro no pelado rapazes da nossa turma. Por isso as
camisolas tinham dois pesos: o tronco e os sonhos de cada um de nós na Escola e
na Vida.
A vida é um mistério. Estamos aqui e fomos há pouco tempo às Águas Férreas, ao
Senhor da Boa Morte, à Ermida de Alcamé. Fomos a pé, fomos em grupo, fomos na
carroça de um vizinho toda enfeitada com bandeiras e alecrim nos varais e um
pano branco por causa do sol. Fomos e connosco foi o som da água em Santa
Sofia, os golos gritados nos jogos ao lado do café do Birra para mudar aos 6
acabar aos 12, o homem da água sempre a chegar com o auto-tanque municipal à
hora do romance na rádio. Viemos e connosco veio o fervor das orações de quem
pedia em 1962 que a guerra já não chegasse ao nosso tempo de mancebos.
Trouxemos no olhar a força dessa liturgia de palavras, no peito o sol e o pó
das romarias, na boca as canções mais puras e simples como esta quadra que hoje
cito de memória: «Quem é pobre sempre é pobre / quem é pobre nada tem / quem é
rico sempre é rico / e às vezes não é ninguém».
Afinal estas são também outras formas de poema pois em todos os casos (oração,
viagem, canção) as palavras servem para juntar de novo o que o tempo separou, a
noite ajudou a esquecer e a memória veio depositar numa mesa de festa de
aniversário. A vida é um mistério. Não é um negócio. Às vezes no meio do
silêncio, da solidão e da melancolia é possível uma tentativa para decifrar os
mistérios da vida.
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 18:00


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