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Transporte Sentimental



Quinta-feira, 27.12.12

outras leituras de 2008

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«Primeira pessoa» de Pedro Mexia

Todo o cronista aspira a ultrapassar o efémero do jornal ou da revista e juntar
as suas crónicas em livro. Antes publicadas na «Grande Reportagem», há neste
conjunto de tudo um pouco. A começar pela crónica em si: «Os textos de quem
escreve vêm do mesmo sítio das conversas dos conversadores ou das recordações
dos anciãos: desse sótão no qual se empilham murmúrios, recortes,
quinquilharia.» E passando pelo autor, ele mesmo, o próprio: «Um gordo não é
exactamente um homem: é um bom amigo. Um bom tipo. Horrorizado, chego à
conclusão de que quase todas as pessoas que me conhecem me acham confiável,
compreensivo e relativamente inofensivo.» Entre a crónica e o autor surge o
Mundo: «O nosso mundo compõe-se de três categorias: aqueles de quem gostamos,
aqueles de quem não gostamos e aqueles de quem gostamos porque gostam de nós.»
Nem tudo é bom; às vezes aparecem inimigos: «O inimigo, na sua cabeça, vê a
outra pessoa como uma caricatura demoníaca, desprovida de méritos, de
atenuantes, mesmo de humanidade. O inimigo espreita cada passo. Constrói em
negativo, uma relação quase amorosa.» E, se estamos no Mundo, há nele lugares:
«Há quem deteste o «Snob». Sei de duas ou três pessoas que dizem, enojadas:
«Nem pensar, não quero ir a um lugar frequentado por jornalistas.» Não anuncio
grande novidade se disser que são os jornalistas que dizem frases assim.
Compreendo que as manchetes devem ser lidas de manhã, quando compramos os
jornais na banca da esquina e não espiolhadas de véspera na maré das redacções
que desaguam para um bife tardio e um copo reparador.»
(Editora: Casa das Letras, Capa: Neusa Dias, Foto: Pedro Loureiro, Prefácio:
Francisco José Viegas)
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 12:24

Quinta-feira, 27.12.12

outras leituras de 2008

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«Olhar de Médi.co» de Pedro Nunes

O médico Pedro Nunes (Lisboa, 1954) juntou neste livro textos publicados
anteriormente no jornal «Medi.com». São vários os registos das suas opiniões.
Umas vezes a crítica directa, objectiva e política: «O Presidente da ARS do
Norte, Dr. Jorge Catarino, acabou de dizer à RTP1, num notável exercício de
transparência, que privilegiaria na sua nomeação para cargos de direcção quem
fosse do PS. O Dr. Catarino mais não disse, sem tibiezas e com a frontalidade
tão característica do Porto, que aquilo que todos nós já sabíamos. Podem
primeiros-ministros dizer que não há jobs para boys que, velhos que vamos
sendo, damos a tais afirmações o mesmo valor que os americanos deram ao read my
lips do outro Bush, o pai.» Outras vezes o comentário segue terrenos da ironia,
do subjectivo e do humor: «Os Médicos de Família estão descontentes. O Ministro
não consegue encontrar directores para tantos Centros de Saúde ou, pelo menos,
não encontra dinheiro para pagar a tanto dirigente. Muito simples. Entregam-se
os Centros de Saúde aos Hospitais, mete-se tudo no mesmo saco, transformam-se
os Directores do Centros de Saúde em Directores de Serviço, muito mais
económicos e muito menos dirigentes e, défice por défice, que interessam mais
uns trocos? Põe-se um Médico de Família por convite no Conselho de
Administração, «que diabo alguém há-de ser do partido do Governo», e todos
ficam contentes. Em seguida é só pedir a um missionário qualquer que escreva
uns «manuais de boas práticas», mandam-se os Médicos de Família fazer as
urgências e está o Carnaval montado.»
(Editora: Bico de Lacre, Prefácio: António Bento, Capa: Roberto Medeiros)
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 12:22

Quinta-feira, 27.12.12

leituras de 2008

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«A voz da Mãe» de Fernando Miguel Bernardes

Depois de «Escrito na cela», «Uma fortaleza da resistência» e «Docas secas»,
Fernando Miguel Bernardes recupera neste livro uma certa noção de história em
testemunho: o cruzamento de uma história particular com a história mais geral
do País no qual os sujeitos se movem. As histórias são pessoais e familiares
mas o fito da narrativa é mais geral quando o narrador se dirige à Mãe, então
morta: «Parecido contigo é o Francisco mas homem e pai de outra família que vai
crescendo. Como tu curioso, à procura de uma explicação do mundo, como se uma
razão houvesse do nascer e do viver, dos homens e dos bichos, da honradez e do
perverso.» Uma das histórias tem a ver com a resistência ao fascismo: «arrombam
e tombam e invadem e avançam e tu que te antepões à mulher a à criança, aqui
param!, no quarto não entram! E em menos de um credo estás no chão, o menino a
chorar pelo alarido que se gerou e a Sara pronto meu filho, não foi nada, e
procura distrair-lhe a atenção, com ele nos braços cá e lá, e por ti
angustiada.» É uma história de pessoas mas também da terra, da terra
propriamente dita e do seu abandono: «Grande abandono grassa por aí. Triste sem
dúvida mas a vida se concertará e quem vier há-de com certeza resolver este
grave problema que a todos diz respeito. Um drama, pois quem o nega? mas de
dramas nunca o ser humano se libertou nem libertará, assim o creio e sincera
sou, duvido se ao mundo isso algum bem traria; das contradições é que nasce o
novo…» Um livro no qual convivem histórias dos últimos cinquenta anos da
nossa história pública recente e que, tal como afirma o autor do prefácio, «nos
ajuda a manter viva a nossa memória colectiva».
(Editora: Occidentalis, Capa: sobre um óleo de Picasso, Prefácio: António
Ventura)
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 12:19


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