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Transporte Sentimental



Quinta-feira, 20.12.12

terceira memória de santa catarina

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No Verão desse tempo havia tempo para tudo (foto da velha igreja de S.
Catarina)
Todos se lembram mas poucos recordam – esta adversativa do poeta
Carlos Garcia de Castro vem mesmo a calhar para o início de uma memória.
Algures no tempo entre 1961 e 1966, nas férias grandes da escola, havia
tempo para tudo. Descansava-se na parte final de Junho, todo o Julho, todo
o Agosto e todo o Setembro. É que as aulas só começavam a 6 porque 5 de
Outubro era feriado nacional. As minhas idas à loja do senhor Ernesto e da
menina Judite tinham deixado de ser para trocar ovos por arroz, açúcar e
sabão e passaram a ser por causa do correio. Não havia ao tempo estação dos
CTT e era ali pelas duas da tarde que a loja se enchia de gente para ouvir
cantar em voz alta os nomes nos endereços dos envelopes. Com o arranque da
guerra em África (não se podia dizer guerra) começaram a circular os
aerogramas e aumentaram muito os objectos postais em circulação.
Eu procurava cartas da minha mãe em Vila Franca de Xira sempre com bons
conselhos para me portar bem com a minha avó e o meu avô sem esquecer os
tios Joaquim e Rosa; Rosa a quem eu chamava tia velha com carinho. Ela
achava graça e incorporou essa alcunha quando se referia a ela mesma. Muita
gente ia lá à loja só para saber quem tinha recebido carta.
A Maria Judite estava na loja do lado de dentro do balcão ao lado da mãe,
do pai e do Almerindo, o caixeiro que também jogava à bola no nosso
Catarinense embora fosse natural de Chãos de Baixo (Figueiró dos Vinhos)
tendo chegado ali com a experiência de trabalhar no Paião com um feirante
que batia os mercados todos naquela zona do País. Foi ele que trouxe por
500 escudos uma coreografia em papel vegetal do «vira dos moinhos» dos
Esticadinhos de Cantanhede. A Maria Judite estava lá quando mandaram chamar
o nosso ensaiador.
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 19:35

Quinta-feira, 20.12.12

outra memória de santa catarina

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«O pedreiro cheira a cal / o carpinteiro a madeira…»
Nasci em Fevereiro de 1951, dois meses antes da Maria Judite, temos quase a
mesma idade mas eu fui para o Montijo em 1957 com toda a família e só nos
reencontrámos no ano lectivo de 1960/1961. Eu vinha já com a ideia de fazer o
exame da terceira classe em Abril e, pouco depois, o exame da quarta classe em
Julho de 1961. Ambos na Delegação Escolar das Caldas da Rainha. Tenho uma
memória dos nossos números : julgo que éramos 8 alunos (3 rapazes e 5
raparigas) no exame da quarta classe porque o exame da terceira classe foi só
para mim que andava um ano atrasado por causa de uma birra da Delegação Escolar
do Montijo. Adiante.
Do que me lembro bem é das cantigas das alunas da escola de Santa Catarina no
seu recreio. A professora dos rapazes era a D. Mafalda, da professora das
raparigas não recordo o nome. Uma das canções de roda era assim: «O pedreiro
cheira a cal / o carpinteiro a madeira / cada qual com seu ofício / eu também
sou lavadeira. / Eu também sou lavadeira / lavo no Rio Jordão / Lavo saias,
entremeios / também lavo o meu calção!» (Nota para a gente nova: o entremeio é
uma espécie de renda ou tira bordada para roupa branca. Se por roupa branca se
entender saiote são capazes de ficar na mesma. Não sabem nem fazem ideia do que
possa ser.)
Entretanto o tempo passou e fui para Vila Franca de Xira estudar de 1961 a 1966
e logo a seguir trabalhar para Lisboa. Só mais tarde, já colaborador do
«Despertar», vim a saber pelo senhor Vidal do CEBI que, em Alverca do Ribatejo,
a Maria Judite chorou quando a quiseram tirar dos bebés pequeninos pensando que
a estavam a promover ao levá-la para os maiores. Foi pelas nossas mães que
fomos sempre amigos: em 1951 era de 11 anos (33-22) a diferença entre as duas
mas esse intervalo de idades só serviu para as aproximar ainda mais.
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 19:32

Quinta-feira, 20.12.12

uma memória de santa catarina anos 60

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Os nossos jogadores saíam equipados da taberna
Em Santa Catarina, ao domingo à tarde, as mulheres não lavavam roupa no Rio da
Pedra. Havia os jogos de futebol e a bola podia sujar as roupas ao sol a corar.
Maria Judite assistia do lado de cima da loja (mercearia e fazendas) à confusão
organizada do lado de baixo (taberna) onde os rapazes do Grupo Desportivo
Catarinense se fardavam para o jogo. Às vezes era complicado arranjar os onze e
por isso o desafio começava mais tarde. A táctica era desenhada numa folha de
papel pardo em cima do balcão e as quatro camisolas mais complicadas de
atribuir eram sempre as mesmas – 4, 6, 8 e 10. O chamado quadrado mágico.

O Almerindo era sempre o último a sair. Entregava a chave da porta à Maria
Judite para a dar à mãe, a menina Judite, sempre menina, ao contrário do pai, o
Ernesto, sempre senhor Ernesto. Os jogadores desciam por uma rua estreita entre
a igreja paroquial e as casas do Silvino onde houve o primeiro café da nossa
terra com o Garcia ao balcão e a televisão a preto e branco. Para ver o jogo, o
lugar mais disputado era a ponte sobre o Rio da Pedra porque as pessoas podiam
ver tudo o que se passava no campo, debruçadas e apoiadas no cimento da ponte.

O campo não tinha cabinas. Os jogadores, depois do aquecimento, entravam de
novo em campo a partir do canto mais perto da ponte. Hoje, no lugar do campo
não existe nada, fizeram lá um pomar que não deu nada mas a memória ninguém a
pode arrasar. E continua.
No fim do jogo o Almerindo vem todo suado e com um joelho em sangue pedir a
chave da taberna à Maria Judite que está num grupo de meninas ao lado da casa
do Zé Rebelo. A menina Judite e o senhor Ernesto estão a conversar com a minha
avó e o meu avô Zé Almeida. Quando eu nasci foi a menina Judite que me deu a
primeira prenda: um cobertor azul.
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 19:29


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