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Transporte Sentimental



Terça-feira, 18.12.12

ali para os lados de são tomé

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Já não se fazem cornetas de barro para a feira
Ali para os lados de São Tomé, numa rua estreita, envolto no nevoeiro espesso
da manhã, um rapaz de olhar luminoso desce devagar de uma bicicleta preta. Traz
na mão as chaves da casa do oleiro, seu forno moderno, suas arcadas de tijolo
antigo, sua parede povoada de peneiras que lembram o pão da nossa infância.
Quando somos pequenos somos felizes porque ainda não há morte na nossa vida.
Tudo nos parece imutável e grande e perene. Vamos à feira e ficamos a cobiçar
uma corneta de barro. Dizem-nos que não há dinheiro para brinquedos e talvez
para o ano se compre mas não se acredita. As mulheres da família levam os ovos
todos à mercearia do senhor Ernesto para trocarem o seu valor por sabão azul,
açúcar, arroz, massa e café.
O último oleiro de Lisboa desmonta da sua bicicleta preta e dá início ao dia de
trabalho com uma chávena de café e duas fatias de pão com manteiga. Tal como na
aldeia onde os antigos mestres de olaria faziam as suas cornetas de barro. As
peneiras nas paredes lembram os fornos e a alegria convocada pelas mulheres que
coziam o pão com testemunhas – fossem elas de carne em fatias, de
toucinho ou simplesmente de sardinhas do homem do burro.
Seu pai, que derramou talento nas páginas quase infinitas dos jornais que no
dia seguinte são apenas folhas perdidas no vento da cidade, seu pai, esse
sempre soube a diferença entre as árvores do Campo Grande e as do Marão. Quando
coloca devagar, no forno de cerâmica, toda e cada uma das suas peças, o jovem
oleiro que é o último de Lisboa com oficina ali para os lados de São Tomé, está
a repetir os sonhos de menino de seu pai, o jornalista e escritor, que mesmo na
cidade não esquecia as cornetas de barro das suas aldeias lá de Trás os Montes.

José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 13:54


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