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Transporte Sentimental



Domingo, 09.12.12

fernando alves - uma outra crónica à maneira de...

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Adelino, tal e qual, entre o sol e o pó
A 210 quilómetros da grande cidade, o sorriso de Adelino convida a um copo
na sua adega, com azeitonas e meio casqueiro na mão. Lava os copos na água
fria de um garrafão empalhado («Esta é do furo!») e bebemos à nossa saúde e
dos netos. Saudamos o passado e o futuro porque o presente são os filhos
que estão a trabalhar. Empurra as galinhas com um gesto largo mas elas não
desistem. O vinho é morangueiro mas é muito bom.
Largos minutos depois, ainda as mulheres estão a despejar a bagageira do
automóvel, já Adelino sorri de novo («Eu não dizia?») e os sacos de
plástico não acabam. Desce comigo até à casa velha da outra banda para
mostrar como a ribeira vai seca e lamenta: «Assim as nascentes não
rebentam!» Obriga-me a aceitar um saco de plástico cheio de pinhas para
acender o lume e meia dúzia de ovos para fritar com azeite «do nosso».
Adelino é guloso mas quem não será guloso com estes ovos amarelos de
galinhas que só comem milho «do nosso»?
Passa o peixeiro, passa o padeiro, passa o rapaz dos Correios; cada um com
o seu apito estridente marca o ritmo do dia nesta aldeia. Outro som sai do
posto público, uma casinha de cortiça, de onde Adelino aparece depois de
chamar um táxi. No seu português dirá «já chamei o carro de praça!» porque
nunca se vai habituar a dizer táxi. Amanhã, tal e qual, entre o sol e o pó,
Adelino repetirá o convite, entre sorrisos e cumplicidade - «Quer vir à
vila mais eu? Já vem aí o carro de praça!». Na ponte sobre a ribeira que
vai seca («e já vamos em Março, veja lá») Adelino é um perfil, uma mistura
de memórias e de sombras, num gesto galhardo de votos de boa viagem para
nós, os de Lisboa. Obrigado Adelino, até sempre! Daqui até à vila ainda sou
capaz de me cruzar com o seu carro de praça.
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 21:25

Domingo, 09.12.12

mais leituras de 2007

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«Morreste-me» de José Luís Peixoto

Depois de ter sido editado no «D.N. Jovem» em 1996 e na Colectânea Jovens
Criadores em 1998, este texto tem tido sucessivas edições em livro desde a
primeira em 2000. A partir de uma vivência em ambiente de hospital («As
mulheres falavam, os homens fumavam cigarros») surge a memória do filho a
recordar o pai: «Dizia nunca esquecerei e hoje lembro-me». O texto oscila
entre o diálogo com o pai («Se pudesse tinha-te protegido.») e a memória do
filho: «Eu andava no primeiro ano da telescola e não pensava nas notas.» Na
paisagem povoada pelo luto, a memória do afecto é uma agressão: «Pai. Tudo
o que te sobreviveu me agride. Pai, nunca esquecerei.» O texto é uma viagem
(«Vou. Avanço. Avanço e regresso. E cada quilómetro um mês e cada metro um
dia. Avanço para o que fomos.») e a conclusão é uma visão inversa dos
papéis – o pai é no texto o pequenino; o filho fala como se fosse o
pai: «Pai. Dorme, pequenino, que foste tanto. E espeta-se-me no peito nunca
mais te poder ouvir ver tocar. Pai, onde estiveres dorme agora. Menino.
Eras um pouco muito de mim. Descansa, pai. Ficou o teu sorriso que não
esqueço, ficaste todo em mim. Pai. Nunca esquecerei.» Este livro (comovente
testemunho numa escrita prosopoética de rara beleza artesanal) é dedicado è
memória do pai do escritor José Luís Peixoto – José João Serrano
Peixoto.
(Editora: Temas e Debates, Capa: José Afonso Furtado)
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 21:09

Domingo, 09.12.12

mais leituras de 2007

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«Poesia em verso» de Rui Caeiro, Afonso Cautela e Vítor Silva Tavares

Três poetas juntam poemas em livro com a qualificada ilustração de Luís
Miguel Gaspar. É um encontro ao arrepio da literatura triunfante que vende
livros em barda e aparece na TV. Rui Caeiro lê a sua relação com a cidade
em «Travessa dos Remolares». Depois de enumerar a paisagem e o povoamento,
conclui: «No parco mostruário da Travessa esqueci-me de alguma coisa? / Sim
e por sinal do mais importante: a montra com frangos torturados no espeto,
/ possível antevisão do inferno (como se a própria rua já não bastasse) /
ou então resquício dos tempos da Santa Inquisição». A sua ligação ao Mundo
revela-se em «Uma certa vontade de chorar»: «Porque não vais ao médico?
Tornam, pressurosos, os mais chegados /logo passando a sugerir conhecidos e
sonantes nomes de médicos, psicólogos, psicanalistas, tarólogos, há-os que
fazem milagres. /Procuro convencê-los de que essa vontade de chorar é
qualquer coisa de bom na minha vida.» Afonso Cautela usa o humor como
aproximação ao Mundo no excerto dum poema: «Se é português já se sabe que
foi / sempre a queixar-se da perna que lhe dói / Deste chamado rectângulo
desta chamada pátria / deste chamado país deste chamado Portugal / Que
ficou como novo depois de ser pintado / e ficou à espera de um voto para
deputado». Vítor Silva Tavares usa a ironia para falar do Mundo («Frente à
sopa do Sidónio/vejo um velho cor de azia/todo feito num harmónio/por
misericordia /Então e aquela velha/que me estende a garra esguia?/Basta:
não há telha / para tanta democracia») e conclui com graça um retrato das
letras lusas: «Eu queria ser peixoto/de aquário/a voltear/no
esgoto/literário. Eu queria ser o mia/a miar pretoguês/ao balcão onde
avia/um romance por mês./Eu queria ser antónio/e lobo como ele/a espremer
do neurónio/um antunes de fel./Eu queria ser eugénio/lorca no porto/a
oxigénio/depois de morto.»
(Desenhos: Luís Miguel Gaspar, Capa: Caixa das Letras, Editora: Livraria
Letra Livre)
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 21:07

Domingo, 09.12.12

mais leituras de 2007

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«As coisas mais simples» de Nuno Júdice

Este livro de Nuno Júdice (n.1949) confirma a qualidade duma voz poética
que se começou a revelar em 1972 com «A noção de poema». Os poemas
dissertam sobre o amor e a morte. Em «Fotografia de mulher num molhe» o
poeta encontra uma mulher: «O seu mundo limita-se a esta baía / que as suas
mãos envolvem numa busca de / recordações. E eu estou fora de tudo o que
ela / pensa, enquanto construo o poema de que ela / faz parte, com a
solidão que a protege de mim.» Em «Encontro inesperado» o protagonista é a
morte: «Um dia também eu hei-de encontrar a morte no meio da estação; / ela
terá nas mãos o jornal aberto na página que eu quero / e perguntar-me-á se
conheço aquela pessoa ou se sei o que é feito dela. / Mostrar-lhe-ei o
mesmo jornal e dir-lhe-ei que também eu a procuro.» Amor e morte são temas
que anunciam outro tema: Deus. Assim: «Volto ao problema de Deus / que foi
o ponto de onde tudo isto nasceu. / E vejo que não tem solução: Deus é esta
limitação de sentido que atinge o infinito e a perfeição de que ele é
feito. / Como falar de infinito quando não sabemos sequer onde é o seu
princípio?» Para escrever sobre o amor e a morte, Deus e o Mundo, o autor
parte das coisas mais simples, título feliz do livro: «As coisas mais
simples, ouço-as no intervalo / do vento, quando um simples bater de chuva
nos vidros / rompe o silêncio da noite / e o seu ritmo se sobrepõe ao das
palavras. / Por vezes é uma voz cansada que repete incansavelmente o que a
noite ensina a quem a vive; / de outras vezes corre apressada, atropelando
sentidos e frases como se quisesse chegar ao fim, mais depressa do que a
madrugada.»
(Editora: Publicações Dom Quixote, Revisão: Eulália Pyrrait)
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 21:04


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