Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Transporte Sentimental



Sábado, 11.10.14

«vida e morte de um culto popular - a santa da ladeira» de aurélio lopes

Image.jpg


«Vida e morte de um culto popular – A Santa da Ladeira» de Aurélio Lopes Aurélio Lopes (n. 1954) começa por abordar o papel dos místicos e videntes na religiosidade cristã que se define deste modo: «O Cristianismo é uma religião revelada, soteriológica, escatológica, apocalíptica e militante». Mas quando o vidente («que vê o Mundo como uma perpétua luta entre o bem e o mal») começa a reclamar uma construção («capela, igreja ou santuário») para morada terrena da entidade divina, surgem os problemas. Tal é o caso da «Santa da Ladeira», Maria da Conceição (1930-2003) que foi «santa» para os apaniguados e «bruxa» para os opositores. O autor explica: «Até 1968 o culto resumia-se à oração orientada pela Maria da Conceição e aos fenómenos extáticos e catalépticos interpretados por esta e por alguns acólitos. A partir daí, com a chegada dos padres estrangeiros, iniciam-se as celebrações litúrgicas em paralelo com a cultualidade frenética e emotiva da taumaturgia mística». Nos anos 60, Maria da Conceição afirmou a Baptista-Bastos que teve «púrpura» (leucemia) e foi curada mas o jornal «Actualidades» de 10-6-1972 desmente: «Isso não é verdade. Ela nunca teve essa doença como pode verificar-se no Hospital da Golegã onde esteve internada». As autoridades judiciais encerraram o espaço da Ladeira do Pinheiro entre 20-8-1972 e 5-5-1974 mas tal situação, além de ter transmitido à seita uma natural euforia na reabertura, levou a que, no discurso da «santa», o nome de Heitor fosse substituído por Enoch, o profeta que foi levado para o Céu com Elias. As fragilidades culturais são compensadas pelas palavras vigorosas a interpelar os seus «fiéis»: «Há um ano que vos ando a pedir para salvarem o terreno da Ladeira. Todos têm amor a cinquenta contos e então o amor à alma? Que vale mais, a alma ou cinquenta contos?» Aurélio Lopes define a figura em três linhas: «Ela é insignificante, mas…Deus escolheu-a. Ela, às vezes, é brusca mas… as pessoas seguem-na. Ela «não se considera santa»; são, depreende-se…os outros que a consideram!». A mesma ironia do autor surge no texto sobre o maná: «Se o «maná» caiu no deserto para alimentar o «povo escolhido», também há-de cair na Ladeira, para alimentar os escolhidos do povo». A relação entre a Ladeira do Pinheiro e Fátima surge no livro: «Num caso, três crianças de tenra idade, rústicas e analfabetas, num tempo em que o mundo se resumia, ainda, à aldeia. Noutro um mulher madura, inculta mas carismática, num tempo em que o espaço social se tinha expandido e universalizado.» Por fim o insólito: o reconhecimento por uma Igreja, solicitado ao longo dos anos pela «santa» («O Senhor Cardeal que venha estar comigo») acontece em 1977 quando D. João Gabriel, arcebispo ortodoxo, aprova as «aparições» mas a sua morte em 1997 vem alterar a situação. Os ortodoxos afastam em 2004 a sucessora designada pela «Mãe Maria» («Teresinha») e disciplinam do culto, no seguimento da sua recusa em aceitar a designação de «santa». Para estes responsáveis, Maria da Conceição («mulher do povo, rústica e praticamente analfabeta») sempre foi referida apenas como «iluminada», «profeta», «vidente» ou «mensageira de Deus». (Editora: Apenas Livros, Direcção: Ana Paula Guimarães, Revisão: Luís Filipe Coelho, Patrocínios: IELT/FCT) --

Autoria e outros dados (tags, etc)

por José do Carmo Francisco às 09:21



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Outubro 2014

D S T Q Q S S
1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031





Visitas