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Transporte Sentimental



Sexta-feira, 24.10.14

v.f.x. - elegia para a mulher-menina do mouchão da póvoa

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Não sei o seu nome sequer. Pode ser Sofia, Ana Maria, Alegria, Maresia, Simpatia, pode ser tudo e mais alguma coisa mas mesmo sem saber o nome quero fazer no precário do momento que vivo e das palavras que uso, uma elegia breve a esta aparição em esplendor num dia de festa entre alunos e professores da Escola Industrial e Comercial de Vila Franca. A nossa memória não é pura porque incorpora sempre um aluvião de coisas passadas e, quarenta e oito anos depois da última aula, eu convoco a memória das mulheres-meninas da minha turma em 1966 plasmada numa fotografia a preto e branco, elas e eu com o Arnaldo e o «Paplicas», perto do Rio Tejo e de um barco areeiro, o «Gil Conde». Os Actos dos Apóstolos fazem uma adversativa solene («Não tenho prata nem ouro») lembrando que quem escreve para louvar tem apenas as palavras já poluídas pelo uso quotidiano. Mais tarde Carlos de Oliveira em «O aprendiz de feiticeiro» vai insistir - «Escrever é lavrar numa terra de escritores e camponeses abandonados». E eu, obscuro escriba, receoso, hesitante e tímido, lembro as minhas filhas Ana Maria e Marta, de 36 e 29 anos, a viverem no Reino Unido e na Austrália, cada vez mais longe de mim e da infância que é o tempo em que nem os beijos nem as lágrimas têm preço marcado. É tudo grátis. Escrevo devagar a elegia breve para uma mulher-menina cujo nome não conheço e até pode ser Maria, nome que, diz a lenda antiga, foi dado pelos primitivos homens atónitos e maravilhados à primeira mulher que saiu do mar – daí o nome «mar yam», gota do mar. Gota do mar, talvez porque ela trouxe ao salão da festa um mar de beleza em ondas sucessivas de simpatia, sempre que se aproximava das mesas com o seu sorriso de mulher-menina. --

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por José do Carmo Francisco às 09:27



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