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Transporte Sentimental



Quinta-feira, 22.09.16

uma enseada amena no olhar da mulher-menina

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No cinzento da cidade, no quotidiano repetido, na monotonia geral, surgiu um olhar de mulher-menina a tornar luminoso o princípio da tarde. Turistas atónitos não percebiam, lojistas à porta traziam à tarde de Lisboa um enfado de guarda-pó, tristeza e melancolia. E de súbito, nas Escadinhas do Duque, uma mulher-menina irrompeu como uma bandeira ao sol, uma canção feliz, uma alegria inesperada. Por aquelas escadas há muitos anos desceram ardinas a gritar notícias frescas saídas das rotativas quando os jornais eram quase todos no Bairro Alto e a Censura era na Rua da Misericórdia. Eles, os ardinas jovens e cheios de vida, quase voavam pelas Escadinhas do Duque para serem os primeiros a chegar ao Rossio onde se juntavam os mirones em multidão a fazerem tempo entre o fim do trabalho e a hora do jantar. Trabalhava-se ao sábado até à uma da tarde e cinquenta anos passaram num instante. Hoje vejo descer uma «Menina e Moça» como em Bernardim Ribeiro, uma «Pastora» como em Cristóvão Falcão, uma «Joaninha» como em Almeida Garrett, uma actriz deslumbrante como em Cesário Verde, uma «Teresa» como em Camilo Castelo Branco, uma «Leonor» formosa e segura como em Luís de Camões. Seu destino é (parece ser) o Rossio onde uma multidão de turistas (não de viajantes) se atropela numa pressa para coisa nenhuma: uma fotografia do Castelo, um auto-retrato dos próprios, um tuk tuk branco que aproxima Lisboa de um bairro pobre de Banguequoque onde só faltam meninas de doze anos às portas dos bares. Chamavam os Fenícios a esse lugar «enseada amena» e havia braços de rio pela Almirante Reis e pela Avenida da Liberdade. Hoje é no olhar da mulher-menina que essa luz se convoca, multiplica e deixa a certeza feliz da vitória sobre a morte, a amargura e o v --

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por José do Carmo Francisco às 09:25



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