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Transporte Sentimental



Quinta-feira, 04.08.16

«um postal de detroit» de joão ricardo pedro

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Aquilo que em «O teu rosto será o último» foi também uma dissertação sobre a morte por doença é agora em «Um postal de Detroit» uma viagem à volta da morte por acidente. Neste caso o acidente de comboios em Alcafache no dia 11 de Setembro de 1985. João Ricardo Pedro (n.1973) refere duas vezes (páginas 9 e 204) os 17 minutos de atraso com que partiu o comboio Sud Express do Porto-Campanhã para Paris mas não indica o erro cometido na Figueira da Foz que pode ter estado na origem da morte de mais de 150 pessoas. Esta oscilação entre factos e ficção está patente na página 9 quando o autor adverte: «Entre os passageiros do Sud Express encontravam-se duas pessoas minhas conhecidas – uma sobreviveu, a outra não. Por mais que se procure, nenhuma delas poderá ser encontrada nas páginas deste livro mas as páginas deste livro não existiriam sem elas.» O título deste volume poderia ter sido «Morte minuciosa» mas o mesmo já foi utilizado por Orlando Neves. Neste caso temos duas páginas (90 e 220) com referências ao postal de Detroit: «Marta, a filha mais linda do mundo, Ontem vim de Chicago para Detroit, de comboio. É uma viagem muito bonita. Quando fores grande havemos de fazê-la juntos. Já faltam poucas semanas para regressar a Portugal. Dá beijinhos na barriguinha da mãe, para o bebé gostar muito da sua mana. Já escolheram o nome se for menina? Mil beijos de saudades, Francisco». O ponto de partida é uma tragédia («o desaparecimento da Marta») dentro da confusão do espírito de quem dela está perto: «A cabeça humana é uma máquina complicadíssima. Perante tais mistérios, resta-nos usufruir com humildade da beleza de todas as coisas.» A seguir comparam-se pessoas e estorninhos: «A anatomia dos estorninhos confere-lhes uma confrangedora inabilidade para o amor e só um desejo imenso pode garantir a perpetuação da espécie. Já com as pessoas é o contrário: possuem uma aptidão anatómica para o amor e só um desejo imenso as faz adquirir a faculdade de voar.» Num certo sentido a conclusão pode ser assim enunciada: «se tudo é efémero que fique registado em palavras cultas e minuciosas» isto porque «foi graças ao recorte erudito das suas crónicas que Horácio Joaquim Jiménez conquistou o direito à veneração durante as décadas de 40 e 50, à chacota durante parte da de 60, à desgraça na de 70 e ao esquecimento daí em diante.» João Ricardo Pedro assina um belo livro de 223 páginas onde o podemos apontar como herdeiro natural de Raul Brandão, Carlos de Oliveira ou Nuno Bragança. Não por acaso António Lobo Antunes assina esta frase: «Nunca li uma coisa assim. Espantoso!» (Editora: Dom Quixote, Revisão: Madalena Escourido, Capa: Rui Garrido, Edição: Maria do Rosário Pedreira) --

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por José do Carmo Francisco às 10:55



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