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Transporte Sentimental



Terça-feira, 12.05.15

«turbulência na academia do amor» de júlio conrado

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Júlio Conrado (n. 1936) começou pela crítica nos mais diversos jornais e revistas mas, sem esquecer a poesia, o teatro e o conto, nos últimos anos tem trabalhado no romance. O seu «As mãos no fogo» de 2001 integrou a lista dos 25 livros mais importantes entre 1987 e 2012 por mim elaborada para a «Revista Ler» e publicada na sua edição «on line». O ponto de partida surge duma constatação social: «Havia muito mais gente antiquada no exercício do amor do que no geral se pensava.» A resposta é dada pela APON (Academia Publius Ovidio Naso) em duas frentes: recomenda a releitura de Ovídio, Casanova, Sade e D. Juan enquanto nas suas instalações integra «consultadoria matrimonial, planeamento familiar, agência de encontros e gabinetes jurídicos e de psicologia vocacionados para impedir divórcios, promover reconciliações e reacender paixões em vias de extinção.» Berto Aguiar não pensou («jamais lhe tinha passado pela cabeça tornar-se membro de uma academia») mas o seu artigo publicado na revista inglesa «The Romantism Now» leva a uma aproximação pessoal conduzida por PM – Plínio Mendes – um «mediador sem poderes de decisão mas autorizado a enunciar, informalmente, os pressupostos de uma aproximação à APON». Júlio Conrado constrói uma excelente paródia não só à Academia mas também à Literatura e ao país onde ambas (Academia e Literatura) existem. Jerónimo Candeias é advertido: «Nem imaginas o suplício que é andar um livro cá fora sem ruído à volta. Sem recensões, sem chamadas à televisão, sem leitores pagantes, sem mesmo os beneficiários da oferta de exemplares se darem ao trabalho de consumirem a borla e desembaraçarem uma opinião de circunstância, em princípio amigável.» De um lado existe o sangue pisado da vida como na canção de Dalva de Oliveira na página 81: «João Ninguém / Que não é velho nem moço / Come bastante no almoço / Para se esquecer do jantar. / Num vão de escada / Faz a sua morada / Sem pensar na gritaria / Que vem do primeiro andar.» Do outro lado a Literatura: «Odeio gaivotas. Aquele papo fascista , aquele bico feio e voraz, aquele petulante cu em forma de aparo de caneta que se abre num sombrio, desengraçado, leque à emergência do voo, o insulto daquele ar altivo. Reencontra-as no Oeste, a rondarem, subjugadas pelos cheiros pestilentos, os aterros sanitários, a dez quilómetros da costa, quando vai á casa de campo.» Entre a Vida e a Literatura, as cartas de amor: «E ainda dizem que as cartas de amor são um caso arrumado. Estas valeram-me três anos de felicidade fora de horas – e fora de portas.» Por fim, depois da apresentação do livro e antes da sessão de autógrafos, a mulher sai à socapa para não voltar a ver o autor que é um aldrabão estrutural, um patranheiro mas irá encontrar-se com ele num Lar de Benfica, perto da Escola Secundária. É nesse Lar de Idosos que, depois de conhecer a sua «rival», a mulher das cartas de amor conclui «Ainda era muito bonita». Tal como em «A ceia dos cardeais» de Júlio Dantas, poderia ter dito «Como é diferente o amor em Portugal!». (Editora: Âncora, Capa: Sofia Travassos Diogo) --

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por José do Carmo Francisco às 15:16



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