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Transporte Sentimental



Terça-feira, 08.07.14

«traição no seio da família» livro de manuel gaspar

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«A escola da amargura» - podia ser o título deste livro; a sua narrativa descreve o «curso» de amargura que o protagonista tirou em Portugal e em França. Um «curso» tão completo que deu licenciatura, mestrado e doutoramento. Filho de uma mulher analfabeta, rancorosa e violenta («não sabia ler nem escrever»),experimentou a brutalidade da progenitora logo aos seis meses de idade quando esta só o levantou da terra onde tinha caído de dentro de um cesto «depois de acabada a própria lida. A sua azáfama era-lhe mais importante do que a vida do bebé.» Mais tarde, no primeiro dia da escola primária, ela empunhou uma cavaca e gritou: «Ó rapaz do caraças, ou tu aprendes ou levas com a cavaca em cima!». Gritou outra ameaça com uma forquilha quando um dia a chave da casa não aparecia: «Ó rapaz do diabo, ou a chave aparece ou eu estripo-te!» Com oito anos de idade, ele chega a pensar no suicídio: «Não tinha pedido para nascer, muito menos para sofrer violência por parte de quem lhe deveria dar amor.» A violência, o analfabetismo e o rancor da progenitora ficam patentes quando o filho volta pata casa, expulso do seminário: «Ai não comes? Mais barato ficas.» A brutalidade alastra ao pai que se despede deste modo aquando da partida do filho de 14 anos para Lisboa: «Para mim serás sempre considerado como um assassino». Já em França a sua vida negra continuou: por um lado a mulher obrigava o filho mais velho a pagar 450 francos franceses pelo alojamento mas quando o irmão mais novo ficou a seu cargo apenas lhe entregava 300 francos franceses por mês. Um livro como este é feito de dois factores: o sangue pisado e o estilo. O segundo é condicionado pelo facto de o autor ter vivido em França muitos anos. A organização do discurso engloba centenas de advérbios de modo (tão caros aos franceses) como por exemplo «igualmente» três vezes seguidas na página 94 ou «raramente» duas vezes seguidas na página 96. Algumas palavras são usadas em português por influência directa do francês: questões por perguntas, trem por comboio, campesinos por camponeses, diáspora por emigração ou abade por pároco. Uma possível disfunção cronológica leva a que surjam as fotocópias em vez das certidões no início dos anos 60 (pág. 42) ou a ANP, fundada em 21-2-70 aparece na taberna de Caselas antes de 1968 (pág. 118). E também a geografia: a Avenida é Duque de Loulé, não «de Loulé» (pág. 80), a bebida é Eduardino não «Eduardinho» (pág. 84), Emissora Nacional (pág. 112) e Junta de Emigração (pág. 117) têm caixa alta e não baixa, o nome do jornal é O SÉCULO e não «Século» sendo que este e o «Diário de Notícias» umas vezes surgem com aspas e outras sem nenhum sinal gráfico (pág. 80). Por outro lado «demais» não é «de mais» (pág. 176) e «contrabaixista» não leva hífen como contrabaixo (pág. 189). Além disso a idade de Arménio aparece na página 217 como 46 e 45 anos, surge «incerto» depois de parte e seria «incerta» (pág. 190), «solarengo» não é soalheiro (pág. 138), São Martinho do Bispo não é «do Porto» (pág. 228) e «bitoques» não é bitocles (pág. 237). Nada que altere a mensagem final destas páginas: um doloroso, veemente e minucioso testemunho do sofrimento acumulado ao longo de uma vida por quem emigrou para um país diferente do seu em tudo menos num aspecto: a família, lá como cá, continuou a explorar o seu amor, a sua ingenuidade e o seu trabalho. (Editora: Edições Vieira da Silva, Prefácio: Manuel Monteiro, Capa: Paula Némesis, Revisão: Catarina Lopes) --

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por José do Carmo Francisco às 12:06


2 comentários

De Rafael Esteves a 28.11.2014 às 20:40

Prezado escritor José do Carmo Francisco,

Sigo o seu blog e dou-lhe os meus parabéns porque como escritor V.a Ex.a tem verdadeiramente o dom da palavra. É para mim um prazer ler as suas páginas, porque muito tenho aprendido com elas. Quanto à sua capacidade como crítico literário, permita-me de discordar no que respeita à análise que faz ao miolo deste livro “Traição no Seio da Família”
Como também li o livro, e como sou amigo do autor, não sei se V.a Ex.a o é, não posso aceitar de bom grado alguns dos seus comentários, porque incorrectos e por conseguinte lesivos para a imagem do autor da obra.
Permita-me que relembre as suas dissertações. O senhor diz:
“A organização do discurso engloba centenas de advérbios de modo (tão caros aos franceses) como por exemplo «igualmente» três vezes seguidas na página 94 ou «raramente» duas vezes seguidas na página 96”.
V.a Ex.a alega que a utilização dos advérbios de modo, condiciona o estilo do autor. Não, eu não concordo. O autor, tal como o conheço, não é pessoa de género a se deixar condicionar. Ora, o conhecimento aprofundado que possui da língua francesa, é um trunfo que enriquece ainda mais a sua escrita no nosso idioma.
Noutro lado, V.a Ex.a diz ainda:
“Algumas palavras são usadas em português por influência directa do francês: questões por perguntas, trem por comboio, campesinos por camponeses, diáspora por emigração ou abade por pároco”.
Porque razão profere tais afirmações? Não acha que a sua interpretação está condicionada por estereótipos? Porque, certamente para si, todos os que viveram em França, estão condicionados pelos galicismos, como todos os que viveram em Inglatera o são pelos anglicismos. Não concordo consigo. Senão vejamos: “trem”=influência francesa ou português do Brasil?; “Campesino” origem francesa ou latim? Em francês o termo mais aproximativo seria “un paysan”; diáspora= francês ou grego?; “abade= francês ou grego+sírio? Ora, estas suas afirmações, alegando a influência do francês na escrita do autor são inverdades que V.a Ex.a não pode fazer passar como verdades. Para se emitir um comentário sobre a origem de um vocábulo é indispensável conhecer a etimologia do mesmo. Se não a conhecemos e emitimos comentários desajustados, podemos estar a passar por críticos sem credibilidade.
Por outro lado, a sua leitura é uma interpretação à luz do que para si é, ou deveria ser a verdade. Ora, este romance tem tanto de ficção como de realidade. Quando V.a Ex.a alega que não é S.Martinho do Porto, mas sim do Bispo, o autor não se enganou: a troca de “do Bispo” por “do Porto” foi propositada. Ele também sabe que não é Avenida de Loulé mas sim Avenida Duque de Loulé. Isto para citar apenas estes dois casos, porque o senhor faz uma análise exaustiva sobre a veracidade cronológica dos factos, do que deveria ou não deveria ser, como se o romance não tivesse o direito de vaguear entre várias realidades.
Concordo consigo que a revisão não tivesse sido a melhor, não pelos nomes substituídos por outros, como V.a Ex.a refere, mas sim pela sintaxe, onde a revisora se permitiu mudar os tempos verbais e mesmo corrigindo certas palavras no mau sentido, quando as mesmas estavam bem escritas. Este facto, foi de imediato transmitido pelo escritor da obra ao editor a quem manifestou o seu desagrado.
Conheço, pessoalmente, o autor há vários anos, certamente melhor que V.a Ex.a, e posso-lhe dizer que é um guerreiro, um lutador permanente em várias frentes, um homem de uma generosidade fantástica que não merecia uma análise tão pejorativa de V.a Ex.a.
As minhas sinceras desculpas se melindrei a sua sensibilidade, mas cumpre-me defender um amigo que é, como diz o escritor Manuel Augusto Monteiro no prefácio da obra, um criador cultural.
Cumpre-me ainda informar que a minha formação literária é mínima, ou seja, não tenho as capacidades de V.a Ex.a, pelo que desde já peço desculpa por algumas gralhas, faltas de sintaxe ou conjugações verbais menos desajustadas.

De Anónimo a 13.02.2017 às 18:25

Como dizes na parte final, as pequenas falhas na escrita devem de ser absolutamente secondarias ao sentimento forte e sentido expresso pelo escritor.

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