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Transporte Sentimental



Sábado, 05.11.16

thomas suntherland - domingo à tarde em falconwwod

Londres.jpeg


Esta imagem tinha mais a ver com o meu poema «Os corvos de Papillons Walk» mas como não me foi possível encontrar esse poema, aqui vai este «Domingo à tarde em Falconwwod» convertido em prosa poética, poema que escrevi em 2013 para Francisco José Viegas: «O olhar do menino entrou no meu poema e não mais saiu. Era um olhar sentido na revolta de uma exclusão cruel e súbita. Sentado num banco frente à mesa da festa, não o deixam falar com os conhecidos entre vizinhos e colegas de turma na escola. Quase tudo em seu redor era em miniatura, locomotivas e linhas de volta à infância porque o carvão e os apitos são verdade. O olhar do menino era em ponto grande e a sua dôr tinha o volume da sua idade; sete anos bem medidos no meu olhar. Não era problema não o terem convidado mas sim a proibição de se aproximar e de comunicar com as crianças da festa. Festa com pouco de muito recomendável: além de bolso de fábrica e sumos de pacote, bebés e mães com problemas hormonais. Vejo no menino de Falconwood o meu olhar quando na minha vida outros me disseram: Que queres daqui? – como quem bate a porta. E ao bater a porta deixam do lado de fora os sonhos de quem, como eu, só queria fazer um breve recado sobre o tempo que passou. Nos jornais, nas revistas e nas editoras, nos encontros e desencontros das letras e da vida, muitas vezes ouvi a pergunta: Que queres daqui? Foi esse desprezo, essa vaidade, esse rancor que eu vi hoje no olhar triste do menino nos comboios miniatura de Falconwood. Lá tudo é miniatura desde o fumo ao apito, desde as várias linhas às passagens de nível, tudo menos o olhar do menino afastado.» --

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por José do Carmo Francisco às 15:39


1 comentário

De Alberto Flautinhas a 05.11.2016 às 18:54

És mesmo um palonço. Eu pus o nome do poema no google e encontrei logo. É daquelas coisas que até um atrasado mental consegue fazer. Toma lá e não digas que vais daqui.

Cai aqui uma chuva macia e certa
Na estrada do domingo de manhã.
Teimoso e obstinado, o corvo corre
Nos intervalos dos poucos automóveis.
Será o resto de um pão preso ao asfalto
Deixado cair por uma criança indolente.
Mal surge o som e a imagem na curva
De Morden Road, o corvo salta da rua.
Nada sabemos deste corvo capaz de viver
Dentro do tempo de duas guerras mundiais.
Em 1914 terá fugido ali para Greenwich
Matando a fome na cantina da Academia.
Em 1939 escondeu-se no Rio Quaggy
Onde não chegavam as bombas alemãs.

O corvo de Papillons Walk salta
Por cada automóvel que aqui passa.
Nada sabe da chuva desta manhã
Nem dos cânticos da igreja ao lado.
Sem idade nem memória, só futuro
Há nele uma pujante razão de ser.
Não se distrai com os esquilos
Que cruzam os jardins das moradias.
Não se concentra nas crianças da rua
Nas suas roupas, gritos e abóboras.
Não se envolve no trânsito da rua
E no som do guarda-lamas nas lombas.
Em Papillons Walk o corvo come
Um pão que não seca nem termina.

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