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Transporte Sentimental



Segunda-feira, 03.10.16

«talibes - modern day slaves» de mário cruz

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A capa deste livro do fotojornalista Mário Cruz (n.1987) não permite a sua digitalização porque é toda negra como negra, sinistra e tenebrosa é a realidade que ele documenta. O murro no estômago inicial surge com o depoimento de um «Talibé» de 15 anos de idade, Amadou: «Cada dia que passa tento não chorar. Cada dia que passa tento não gritar. Eu não durmo. Apenas fecho os olhos e imagino-me num lugar diferente. Não conheço a minha família. Apenas sei que não sou daqui.» O menino da foto traz no olhar uma angústia sem tamanho, ele foi obrigado a pedir nas ruas de Dakar para entregar o dinheiro apurado ao seu professor corânico. Por causa deste olhar e de todos os olhares do livro de Mário Cruz eu não consegui dormir na noite de 1 para 2 de Outubro de 2016. Foi debaixo de uma profunda comoção que ouvi Fernando Alves apresentar este livro na FNAC do Chiado como só ele sabe e pode fazer, uma espécie de «Sinais do Tempo» em tamanho grande mas sem os limites do tempo radiofónico. E a seguir Marcelo Rebelo de Sousa pegou no microfone para louvar este trabalho de Mário Cruz e os efeitos que já começou a ter no Senegal e na Guiné-Bissau. Num dos textos Fatou Diouf explica o que eram os «Talibés»: «Eram rapazes com idades dos 3 aos 16 anos, entregues pelos pais a professores religiosos encarregues de lhes ensinar a doutrina islâmica. Esses professores («marabouts») transmitiam a fé e a virtude às crianças nas «daaras» que serviam de casa e de sala de aula. Na era colonial esses professores ofereciam aos povos de África o amor-próprio, a orientação e a esperança. A mendicidade foi em tempos vista como um meio de ensinar a caridade e a humildade mas hoje deixou de ser um meio para se tornar um fim em si mesma e um negócio de milhões de dólares.» Mais do que um livro, um álbum, um produto cultural na livraria, o que este trabalho de Mário Cruz nos convoca é a seguir uma bandeira, uma revolta, um clamor de paz e de justiça. As ruas de Dakar não merecem que os «Talibés» as povoem com a mão estendida. É preciso que os meninos deixem de ser escravos e voltem para as suas famílias, que as «daaras» voltem a ser apenas escolas e que os «marabouts» voltem a ser apenas professores. E não os traficantes da alma e do corpo dos meninos de Dakar. Já chega de cárcere privado. Porque a vida é um mistério e não um negócio. Tem a palavra o Ministério da Justiça do Senegal; só quando o último menino deixar de pedir na última rua da cidade este livro terá valido a pena. Foi feito numa gráfica de Istambul, foi apresentado por Fernando Alves e Marcelo Rebelo de Sousa em Lisboa e entrou no coração dos seus leitores para dele nunca mais poder sair. (Editora: FotoEvidence Press, Design: Bonnie Briant, Editor de Texto: David Stuart, Tradução para Português e Francês: Thomas Cabral, Tradução para Árabe: Afef G., Textos: Fatou Diouf e Lauren Siebert) --

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por José do Carmo Francisco às 09:11



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