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Transporte Sentimental



Domingo, 22.03.15

«sabores da vida» de joaquim nascimento

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Joaquim do Nascimento tem publicado livros sobre a sua terra (Pereiros) e sobre a Guerra Colonial; com este volume regressa às origens com 39 crónicas à volta de receitas gastronómicas. Um cardápio completo (sopa, peixe, carne, saladas, doces) também na geografia – Alto Douro, Algarve, Estremadura. E um elucidário final. Várias são as páginas com referências culturais: Vermeer (17), Eça (60), Alexandre O´Neill (69), Manuel Alegre (110), Torga (135), Guerra Junqueiro (153), A Bíblia (161), Camões (177) ou Fernando Pessoa (181). Aqui a gastronomia é um pretexto para o autor exercer a ironia: apresenta-se («Os enchidos da Lídia e as minhas letras são o que de melhor se faz nos Pereiros») e conclui: «umas e outros à procura de memórias, de afectos e de sabores que o tempo teima em levar e a que nós nos agarramos para os voltarmos a apresentar, a Lídia numa mesa farta, eu num livro de memórias que dedico à gente dos Pereiros». O texto mistura a memória da apanha da azeitona com o sorriso de uma menina: «Que terá sido feito da Piedade e do sorriso que guardei dela? Sei que casou numa terra vizinha, guardou gado e fez o queijo, lavou a roupa e teve filhos, talvez o marido matasse um reixelo pela Páscoa, oxalá que os netos a façam sorrir neste fim do dia, para que se lhe abram no rosto as mesmas covinhas que eu vi nele quando tínhamos 10 anos». Passam por aqui memórias das coisas mais essenciais como o pão, o vinho, o azeite ou o queijo. Sobre o pão, por exemplo: «pão, pão era mesmo o de centeio, o único cereal que vingava nas ladeiras dos nossos montes, pele e osso na magreza de um solo pobre regado pelo suro de muito trabalho». Sobre o vinho, outro exemplo: «É o sol que faz o vinho, Pedro, disso sabia o meu avô António Bernardo que fez vinho fino, d´Além Doiro, durante uma vida, na Quinta dos Canais». Sobre o azeite, outra memória: «O azeite servia para alumiar a Deus e os mortos também não o dispensavam no seu dia de Novembro mas servia principalmente para tornar mais gostosa a dieta magra das nossas fragas, o caldo, as batatas e o pão de centeio; entrava também nos mimos das festas do Natal e da Páscoa». Ou o queijo: «A Natália continua a fazer queijo uma ou duas vezes por ano por várias razões – para provar que ainda não perdeu a mão, porque nunca meterá a boca num cibo que outra pessoa faça e para saborear uma tigela de soro, açucarado, migado com pão de trigo». Para concluir, o pó contra a posteridade: «Eu hei-de partir e a Oliveira do Adro há-de permanecer ali por muitas mais gerações e, um dia, o neto da Celestina vai ler-lhe o que, sobre ela, escreveu o Joaquim da Senhora Adelaide». (Editora: Padrões Culturais, Prefácio: Rui Fiolhais, Paginação: Mário Andrade) --

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por José do Carmo Francisco às 10:06


1 comentário

De Joaquim Nascimento a 25.03.2015 às 15:12

Boa tarde, Poeta muito obrigado pela sua releitura tão apurada do meu pobre livro. "Os Sabores da Vida".
Começo por lhe agradecer o facto de me ter devolvido uma palavra nova que me estava a escapar em o "Dicionário do nosso Falar e suas Expressões Idiomáticas" foi "reixelo " que de todo me estava a esquece, reixelo é quase "Agnus Dei" e é, de certeza o "Cordeiro Pascal", o tal que tira o pecado do mundo, sempre e agora que estamos na Páscoa .
Ontem Herberto tinha-me oferecido duas palavras, como comentei no Facebook , foram "arisco" e "amoroso" que também se pode dizer "ameroso " e até amerosinho ", nada como ter a sorte de poder falar com Poetas, para a gente ter à mãos as palavras justas que nos fazem falta à criação.
O seu texto tem uma gralha indesejável, Poeta, você escreve algures "suro " que até se pode parecer com o indesejável "surro" onde eu terei escrito "suor" e, notícia triste, Natália que fazia os melhores queijos do Mundo, morreu-nos em Agosto, nos braços da filha e nos meus, depois de um encantatório serão nos Pereiros. É a vida Poeta. Noutros tempos eu dar-lhe-ia uma "peita" pela palavra achada, teria que ser um reixelo, um cabrito até ou, se calhar, só uma das patas traseiras dele. que a carne está cara e cada vez mais fraca.
Obrigado e boa Páscoa
Joaquim do Nascimento
Joaquim do Nascimento

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