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Transporte Sentimental



Sexta-feira, 28.03.14

rui zink - a metametamorfose e outras fermosas morfoses

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«Narcóticos» de Camilo Castelo Branco ou «Aprendiz de Feiticeiro» de Carlos de Oliveira são dois exemplos muito conhecidos daquilo que, para muitos, é o livro ideal –a miscelânea. Praticante das notas de leitura publicadas em jornais, revistas e programas de rádio desde 1978, muito cedo cheguei ao quase «lugar-comum» de afirmar «Toda a literatura é uma homenagem à literatura». Como é aqui o caso. No primeiro texto deste livro é Frank Kafka o homenageado no centenário da publicação de «A metamorfose». Tal homenagem consiste na narrativa ao contrário da sua novela famosa; ao contrário porque em vez de acordar metamorfoseado num insecto monstruoso, Gregor Samsa acorda como «pessoa normal». O segundo texto parte de um incidente quotidiano («Cortaram-me a electricidade») para alcançar uma dissertação sobre o romance: «A tessitura de um romance pede um misto de crença e descrença. Crença na nossa capacidade de reescrever o Mundo; descrença na capacidade do Mundo de ficar melhor do que o que é». Partindo do trabalho do escritor («fingir que trabalhamos a superfície a fim de escavarmos o que nos cala bem fundo. Dizer as palavras para fazer falar o silêncio») chega-se a uma conclusão: «a realidade é perder. Perder é que é real. Não conseguir fazer as coisas que nos propomos fazer é que é real. A verdade está aí, a essência da vida está aí: no fim todos morremos, até o herói, até o filho de Deus feito homem morre. Todos somos derrotados. A derrota é verdade; a vitória – pura ilusão.» O terceiro trabalho («Monzeit») é uma original biografia de alguém que foi conhecido de poucos e deve a Baptista Bastos sem hífen um retrato bastante elogioso numa crónica dos anos 50. Trata-se dum pretexto para revisitar o sistema cultural português: «Em Portugal a vingança é apenas uma questão de paciência». No fim da viagem a alguns aspectos da cultura portuguesa, fica uma ideia: se Monzeit não existiu resta-nos sempre ao menos o livro de crónicas de Baptista Bastos. Sem hífen, para dar mais peso ao mistério. Em «Aquashow» ou em «A gaivota e o peixe» é o insólito que se instala no quotidiano tal como em «Largar Kristeva» quando um homem diz em brasilês para o outro: «Você está sozinho e você se apaixonou por uma garota metade da sua idade, cara pra caramba e que agora quer um bebê.» Na peça de teatro «Pandora boxe» um jovem casal aguarda que os homens da água, da luz e do gás façam ligações na casa nova mas o pano de fundo é o drama de terem quase 40 anos: «Divorciam-se porque começam a beber. Ficam sem direitos sobre os filhos excepto de os pagar e de os ver de duas em duas semanas, para os putos lhe mostrarem o quanto os odeiam por terem deixado a mãe…» Nota final: uma bela miscelânea, uma homenagem à literatura. (Editora: Teodolito, Editor. Carlos da Veiga Ferreira) --

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por José do Carmo Francisco às 14:20



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