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Transporte Sentimental



Segunda-feira, 02.03.15

«ruben a. - biografia de liberto cruz e madalena cruz»

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Ao contrário do que um dia disse ao seu filho Cristóvão («quando eu morrer ninguém mais se vai lembrar de mim») Ruben A. (1920-1975) tem uma obra com cada vez mais leitores atentos além de uma bibliografia activa em desenvolvimento. Ruben Alfredo Andresen Leitão cedo mostrou o seu gosto pela escrita. Em 1927 escreve a sua mãe: «já sei escrever só e gosto muito». Em 1929 assiste ao naufrágio do cargueiro alemão «Deister» na Foz do Douro, facto que o marca na sua relação com a tragédia. Mais tarde em 1938 viaja para a Alemanha e descobre Berlim, uma cidade que «todos os dias os jornais aclamavam centro do mundo, dando ordens, impondo a sua vontade, nova Roma cheia dos desejos de um velho Nero». A sua Autobiografia abre de forma exemplar: «Dos quarenta aos cinquenta limpa-se a casa. Põem-se telhas onde falta, instala-se um novo sistema sentimental e, no jardim das delícias, no passeio depois do jantar, nas madrugadas sem Deus, ouvimos uma voz que nos buzina que dali para a frente a contagem é outra». Entalado entre a esquerda e a direita, entre o neo-realismo e o surrealismo, deu tudo por Portugal sem o deixar de considerar um país estranho: «Sempre implacável para com os seus cidadãos e sempre pronto a aporrinhá-los, era no entanto muito condescendente para com os cretinos». O seu afastamento do leitorado de Português em Londres, decidido por Salazar a partir da leitura das suas «Páginas II», é trágico: «As porcarias, as obscenidades, os palavrões juncam o livro. Explora-se o reles, o ordinário, o palavreado porco não só da língua literária mas do falar corrente» - despachou o ditador. Ruben A. escreveu um dia: «Estamos longe da Europa, pior longe do Médio Oriente, mais atrasados do que a inércia dos árabes. O problema aqui não tem nada a ver com política, é um problema de inúteis, de incapazes, de sugadores do bem nacional. A coisa atingiu o abuso máximo, ninguém trabalha, ninguém é responsável, pratica-se a inércia como trabalho e passatempo. Está tudo com ferrugem, obsoleto e quando se diz qualquer coisa espetam com um discurso ou com um decreto que ninguém percebe. Estamos subdesenvolvidos de espírito, de acção cívica e humana». (Editora: Estampa, Colecção: Memória das Letras) --

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por José do Carmo Francisco às 17:42



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