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Transporte Sentimental



Domingo, 16.03.14

outras leituras de 2008 - mário rui silvestre

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A infância, sendo o tempo no qual nem as lágrimas nem os beijos têm preço, é o ponto de partida deste livro: «A casa às vezes enchia-se de gente / comigo no chão olhando em redor». Esta paisagem é povoada pelos heróis do «Mundo de aventuras»: «de lá guardarei as costas ao Zorro / que vai num galope pela pradaria / salvar dos bandidos o que resta da tarde». Nos intervalos da escola e da catequese, o pião e o berlinde: «azul e verde rubi sanguíneo / água marinha quartzo transparente / ametista irreal anil iridescente / os berlindes jogados no terreiro». Os ranchos da azeitona passam pela infância e ficam no poema («Finda a campanha / fazem a festa / da adiafa / regressam cantando / às suas terras / sempre tão pobres / como vieram») lado a lado com a poluição do Rio Alviela: «um cheiro a morte turva o dia / nojenta náusea paira sobre a vila / odor ao que o dinheiro corrupto exala / dos que à vida dos outros pouco ligam». O poema-título não refere a infância mas o tempo do Liceu: «Terra dos Leões o clube de futebol regional / de vários campeões que gostávamos de imitar / nos jogos no campo da bola atrás de Santa Clara / um pouco depois das aulas e antes dos matraquilhos». Três autores povoam este espaço: Alexandre Herculano, Guilherme de Azevedo e Ruy Belo: «A melhor coisa que fez / a sua poesia aqui não jaz / pois vive inteira em quem a lê / glória ao autor que durma em paz». Um dos poemas acaba por desenhar o perfil do livro: «o desenho no caderno / linhas vivas num só plano / sangrento sol no poente / tens os olhos tens a mão / o desenho que principia / trémulo só no começo / o cigarro na sinistra / o fumo no olhar aceso». O caderno que o jovem pede à amada para não fechar é o livro que o adulto assina e não se fecha porque povoado de gente a amar e a morrer: «Vinte mil soldados miguelistas / agonizam de peste em Santarém / cercados por vinte mil soldados liberais / rotos famintos fartos de tanto sofrimento». O título é irónico: nem os poemas são menores nem está tudo bem em Santarém. (Editora: Auctoris, Capa e design: Flávio Carlos Silvestre, Apoio: Fundação Comendador José Gonçalves Pereira) José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 16:28



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