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Transporte Sentimental



Segunda-feira, 03.08.15

«os rapazes dos tanques» de alfredo cunha e adelino gomes

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O título deste livro (feliz, fecundo e febril encontro da imagem e da palavra sobre aquele dia «inicial, inteiro e limpo» como lhe chamou Sophia) integra uma relativa transgressão. Os homens da Cavalaria não gostam de ouvir chamar «tanques» tanto às viaturas de lagartas (carros de combate) como às de rodas (EBR, M47 e Chaimites) tal como na Marinha não gostam de ouvir chamar «barcos» aos navios ou «cordas» aos cabos. Adelino Gomes adverte o leitor: «Este não é um livro de História. O que temos para oferecer são fragmentos de uma revolução, na memória de quem a ajudou a arrancar no terreno. A verdade que cada um guarda em si do que fez e viu, a que somámos a forma como, passadas quatro décadas, avalia o resultado da mudança histórica em que se envolveu, ou se viu envolvido, naquele dia.» Mas este não é mais «um» livro sobre o 25 de Abril, é «o» livro sobre o 25 de Abril. Todas as discrepâncias estão aqui presentes, notadas e relevadas. Por exemplo o facto de no Ultramar não haver viaturas M47 mas as acções decisivas no Terreiro do Paço, Rua do Arsenal e Ribeira das Naus, terem sido tomadas por homens dentro de viaturas M47. Outro aspecto curioso: foi um simples cabo apontador (José Alves Costa) que disse «não» ao poderoso brigadeiro Junqueira dos Reis. Catorze anos depois, numa entrevista dada a Fernando Assis Pacheco, sobre esse gesto de recusa, Salgueiro Maia dirá: «Aqui é que se ganhou o 25 de Abril». O cabo apontador José Alves Costa (n.1951) vinha de um tempo de escravidão («Cheguei a comer meia sardinha e pão bolorento») e hoje continua a festejar o 25 de Abril («Abençoado dia») também porque a sua recusa ajudou a fazer a História: «Eu ia matar inocentes e fazer aquilo que não queria fazer? Daí eu recusar-me a dar fogo. É essa responsabilidade que eu assumi na maré e assumo.» Nota final – neste «livro para ver e ler» escolhi uma foto de Alfredo Cunha em vez de capa não só porque a considero «a fotografia» mas também porque não pude reproduzir a capa por razões técnicas. A capa é muito grande como grande é a emoção depois da leitura deste álbum de palavras e de imagens. Por ser grande não cabe no vidro A4 do aparelho tal como a mensagem deste livro não cabe no coração dos seus leitores. (Edição: Porto Editora, Capa: Alexandre Fernandes, Apoios: Câmara Municipal de Lisboa, Município de Braga, Assembleia da República, Município de Barcelos) --

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por José do Carmo Francisco às 18:24



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