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Transporte Sentimental



Terça-feira, 26.04.16

os quatro elementos na voz da mulher-menina

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Há um rumor de água no timbre da voz da mulher-menina. Sobe esse rumor das linhas de água sem nome que afluem noite e dia às ribeiras conhecidas; as quais, por sua vez, debitam o seu caudal nos afluentes da margem esquerda do Rio Tejo: Erges, Ponsul, Ocreza, Zêzere, Maior e Trancão. Há um rumor de terra na altura da voz da mulher-menina, como se todo o mistério da terra adormecida nas noites de chuva se desvendasse nos primeiros raios de sol nesta manhã de segunda-feira depois de um vento inesperado ter atirado as nuvens escuras para o lado de Espanha. Há um rumor de fogo na extensão da voz da mulher menina, quente e duradouro, para lá do vidro que nos separa do seu esplendor. O gato instalou-se perto do lume, enroscado, adormecido, egoísta, capaz de inventar uma outra vida quando a vida do momento que passa se parece perder. Tal como as ondas do mar, são sete as vidas do gato. Há um rumor de ar na potência da voz da mulher-menina, o mesmo ar que entra nas casas e aquece o forno do pão ou entra mas cantigas de quem pratica as tarefas transparentes da chamada vida da casa: as refeições, a limpeza, o momento de engomar, a paz do sono merecido. É na voz da mulher-menina que o Mundo se renova todos os dias. No seu gabinete vê cinco homens que descem do avião do céu com asas de nylon e correm num relvado à procura do pára-quedas que enrolam velozmente a caminho do hangar. Água, terra, fogo e ar são os elementos que a voz da mulher-menina convoca todas as manhãs para que a vida comece de novo e haja na terra o contrário da escuridão. --

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por José do Carmo Francisco às 19:47



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