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Transporte Sentimental



Sábado, 17.09.16

o peso da água entre o olhar e a voz da mulher-menina

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O lugar onde nasceu a mulher-menina é uma aldeia e fica no limiar de duas províncias posteriores a 1937 – Ribatejo e Estremadura. Antes dessa data não havia essa separação em termos de organização política do Território. De um lado a Charneca, a Lezíria e o Bairro. Do outro lado as Praias, a Planície e as Serras. A água escassa que a Charneca reclama está na riqueza do iodo do Litoral estremenho, a monotonia e a riqueza da Lezíria está nas vinhas e nos pomares da Planície, os poços e noras do Bairro estão replicados na neve da Serra de Montejunto que vinha em carroças para os mais frescos sorvetes de Lisboa. A paisagem funde-se com o povoamento do lugar, os pequenos rios deixam de existir de noite, são água, apenas água, entre a pedra da margem e o rumor da velocidade. Entre o olhar e a voz da mulher-menina surge a água, sempre a água, com a sua fertilidade a povoar brejos e hortas, picotas e alcatruzes de metal, é a água que tudo empurra nos primeiros momentos da manhã. Começa pelo pão, continua no chá, termina na sede saciada nos cântaros mais escuros das cozinhas da aldeia. Porque mesmo no ritmo da cidade é a força da gramática da aldeia que permanece entre a voz e o olhar da mulher-menina. E toda a vida depende da água mesmo quando ela se esconde no escuro da mina, no poço profundo ou no riacho quase invisível mas afinal presente entre a paisagem e o povoamento. Não por acaso as civilizações nascem nos grandes deltas dos rios, entre peixe abundante, sal e cerâmica onde se guarda o que ficou depois da abundância. O vento é o ponto final desta crónica em forma de quase-poema, ele que passa por cima da Serra estremenha e entra pelo Bairro ribatejano a empurrar estendais e a fazer cantar moínhos antigos. Desses que resistem ao tempo e à sua lenta erosão. --

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por José do Carmo Francisco às 09:41



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