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Transporte Sentimental



Domingo, 01.11.15

«o osso da borboleta» de rui cardoso martins

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Depois de «E se eu gostasse muito de morrer» (2006), «Deixem passar o homem invisível» (2009) e «Se fosse fácil era para os outros» (2012), Rui Cardoso Martins (n.1967) assina este «O osso da borboleta» em 2014. Vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela da APE em 2009, o autor confirma neste romance uma capacidade notável para criar «fábula» (última palavra do livro) – ou seja ficção, mito, narração ou lenda. Começa no título pois a borboleta tanto pode ser o «insecto» como a «mulher de má nota». Se nos insectos não há ossos, já nas mulheres que andam na rua os ossos fazem parte do esquema. A fábula acontece numa cidade pequena junto ao mar, com um casino e um bairro de pescadores, um farol e a foz de um rio: «Chega da barra do porto, do farolzito, o cheiro limoso das rochas, o silvo do mar, da salgada solidão dos afogados. Salsugem e vento.» Na paisagem da cidade, um homem esconde-se no sótão («Onde nem todos os polícias juntos me encontram») e uma mulher insulta as flores do pátio: «Cabrona, tens o canteiro todo para ti, cresce!» Este livro pode ter três referências: Carlos de Oliveira («Uma abelha na chuva»), Raúl Brandão («Húmus») e Camilo Castelo Branco («Coisas espantosas»). O modo como Rui Cardoso Martins liga o Campo e a Cidade é exemplar: «Os pássaros do campo vêm à cidade porque sabem que ninguém os caça. Os únicos seres que morrem com regularidade a tiro de caçadeira nos centros urbanos portugueses são as mulheres dos homens ciumentos.» A rainha das praias de Portugal está a mudar: «Aqui médicos, advogados, engenheiros, industriais, banqueiros de cigarrilha cubana com as suas inúteis senhoras ao lado. Ao fundo, as tendas de comerciantes com mulher gorda que tiram do tacho e comem arroz de boca aberta» A memória, porém, não muda: «Não se repete o calor da mãe, a canção de embalar, o beijinho de boa noite. O corredor escuro acabou mas, se não tiveres cuidado, vais passar a vida inteira nesse corredor. Os desgostos antigos, mais presentes, inundam os dias». Tal como a relação entre Vida e Amor: «Apesar do que fiz na chamada vida, ainda me considero pessoa de confiança quanto ao que interessa que é o amor. Na minha opinião, o amor devia ser sempre a actividade verdadeira » O esplendor da fábula está na ligação entre a inscrição realista («A velha sai sempre para o almoço – uma torrada e um galão») e a inscrição imaginada: «os exércitos de Hitler já avançavam sobre Paris, furando a torrada de manteiga da Linha Maginot». A guerra de 1939-1945 passou pela cidade e ficou na memória das pessoas não só no abstracto («A guerra corta as pessoas em postas») mas também no concreto: «Um brinco de ouro tira-se da orelha e é a viagem nocturna de urgência, um anel de noivado passa a suborno do guarda fronteiriço, um brilhante vira pão para toda a semana, um estola de raposa transforma-se em três galinhas» O autor vai ao ponto de nesta fábula do Bem e do Mal, da Vida e da Morte, do Amor e do Ódio, descrever o seu contacto pessoal com o portalegrense António Eustáquio para quem a música «é arte que se constrói e se pratica retrospectivamente», passando a seguir do concreto para o abstracto: a música é «a matemática e a poesia do passado». E também no fio invisível a ligar o espanhol Jesus a Purificação que, grávida dele, descobre o bilhete da fuga no fundo do açucareiro e recorda as suas histórias tão absurdas que só podiam ser verdade: «as noivas grávidas das aldeias da Extremadura eram obrigadas a casar de preto». Editora: Tinta da China, Capa: Vera Tavares) --

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por José do Carmo Francisco às 08:41



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