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Transporte Sentimental



Domingo, 07.02.16

o mar entrou no meu mundo em 1956 (foto de josé cruz)

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O Mar é um assunto que dá para tudo. Nasci em 1951 em Santa Catarina (Caldas da Rainha) que fica a oito quilómetros em linha recta de São Martinho do Porto. O vento que empurrava o som do mar era o mesmo que nos trazia os apitos dos comboios da Linha do Oeste. Eu teria cinco anos e estava no campo com a família nuclear e a alargada no tempo das sementeiras. O som do mar e o som do comboio subiam pela terra dentro ajudados pelo facto de haver um vale e um pequeno rio que nele corre desde sempre e ainda hoje. Ou pelo menos desde o tempo dos Frades Cistercienses de Alcobaça que souberam desviar parte de um dos rios para a sua cozinha para assim poderem lavar os legumes em água corrente sem fiscal nem contador. O mar é tal como os nomes dos meses, uma fonte de mistérios nos quais ninguém parece reparar. Continuamos a chamar terra a um espaço que tem mais água que terra propriamente dita. É um absurdo. Tal como os nomes dos meses pois chamamos Setembro ao mês nove, Outubro ao mês dez, Novembro ao mês onze e Dezembro ao mês doze. Outro absurdo que passa despercebido. Voltemos ao princípio: o mar entrou na minha vida em 1956 pelo som que o vento trazia do lado de São Martinho do Porto. Só vivi ao pé do mar quando tive casa na Ericeira no prédio das âncoras, no Alto da Forca. Abria a janela e via o mar daquela que chegou a ser a quarta alfândega do Reino de Portugal logo a seguir a Lisboa, Porto e Setúbal. Depois fiz um cruzeiro no Algarve no já distante ano de 2008 com passagens por Vilamoura e Alcoutim. Também subi o Douro entre o Peso da Régua e Barca de Alva num barco mas não sou um frequentador habitual do elemento líquido. Conheci outro mar (o Mar das Palha) entre 1957 e 1961 quando vivi no Montijo e vinha no vapor até Lisboa para atravessar a correr a Rua do Ouro (que se chama Rua Áurea) e estar sem falta na automotora das Caldas da Rainha às cinco e vinte da tarde. Duas horas depois, se não houvesse azar, a automotora chegava à minha cidade termal onde nos esperava a camioneta da carreira para Santa Catarina. Mas o Mar dá para tudo. Desde a célebre adversativa «Mais vale andar no mar alto do que nas bocas do Mundo» passando pelo título do nosso livro de leituras do Ciclo Preparatório de Virgílio Couto e acabando na história deliciosa contada pelo poeta Emanuel Félix nos seus tempos de Paris quando estudava restauro de arte. Perguntando um dia ao seu senhorio, português e açoriano, se nunca se tinha perdido em Paris com tantas ruas e tantas tabuletas em francês, ouviu esta resposta: «Eu fui pescador e andei no mar alto mas nunca me perdi e voltei sempre a casa. Ora Paris não é tão grande como o mar. Se eu nunca me perdi no mar muito menos em Paris me poderia perder. O senhor é boa pessoa mas a sua pergunta até me ofende!» --

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por José do Carmo Francisco às 11:14


1 comentário

De Luis Eme a 07.02.2016 às 20:07

O meu entrou bem mais cedo, nem me lembro, andava ainda ao colo. :)

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