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Transporte Sentimental



Quarta-feira, 11.03.15

«o exemplo das árvores» de miguel gomes coelho

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Como nos livros de contos, o autor escolheu um deles para título do conjunto. Neste caso é «O exemplo das árvores» que ocupa as páginas 11 até 18. Vejamos o poema inicial: «Seja qual for o destino / do voo das tuas mãos / lembra-te / e pensa maduramente / no exemplo da árvores». Ao longo dos séculos a Poesia nunca hesitou em chamar as coisas pelos seus nomes. Neste primeiro capítulo é a reflexão que conta como no poema da página 16: «Não li uma linha / nem escrevi uma frase / mas tive um poema nos meus braços / e declamei-o com toda a força do meu silêncio / não fosse alguém quebrar-me o encantamento». Já em «Mar final» a força está na reflexão sobre a viagem. Começa na página 21 («Porque sempre se cantam as mães /cantemos também a morte / que é a mãe do nada»), percorre a página 23 («Apenas deixarei ficar / um último aceno / ninguém mais se recordará desta barca / ou deste mareante») e conclui na página 25: «Depois lancem as cinzas ao vento / e nele escrevam o epitáfio. / Realiza-se assim o sonho seminal da morte / Nasce a memória, talvez a saudade». A ligação entre esquecimento e morte confirma-se na página 28: «Neste tempo que se liquefaz / e corre célere num túnel de nevoeiro / o único destino é o esquecimento.» O terceiro capítulo é «Com as mãos cheias de gente» permitindo que o poema faça perguntas em voz alta: «De que serviu, então, o passado? De que serviu ter as mãos cheias de gente / e o coração do tamanho do mundo? / De que serviu a promessa jurada de um futuro / inteiro e limpo de braços encadeados / numa marcha segura / o horizonte como destino / olhando em frente?» Noutro poema se escreve o Natal: «É noite e as estrelas estão lá em cima. / Uma criança nasce com a morte já estampada nas faces (…) É assim o Natal no Darfour / e as mesmas estrelas estão lá em cima». Deus surge pela negativa: «Se Deus existisse / as pedras lançadas em seu nome / transformar-se-iam em água / saravam feridas, purificavam actos; / mas Deus, se existiu, morreu / e não deixou testamento / nem descendência». Em «Transparências» os poemas são breves, concentrando a canção e a reflexão na mesma temperatura: «Nunca abras um espelho / nunca queiras ver o que lhe ficou gravado na memória». O capítulo «Diapositivos» reflecte no seu conjunto de seis andamentos poéticos uma ideia ancorada no título do livro: A Natureza fornece a imagem, a Cultura faz a sua apropriação por escrito e por extenso. A Poesia é um vulcão ainda não extinto porque «De uma furna onde / ainda esvoaçam emoções / renasce um tardio rio de lava; / um espanto no entardecer / em que o sol se demora um pouco mais / no aguardar da noite certa». Por fim em «Oldenburg» o livro é uma linha paralela entre em dois poemas – «Nocturno» e «Encontro em Oldenburg». A base é uma promessa («Disseste que me ias trazer mais vida») e o ponto de chegada é um balanço. Dito de outra maneira, trata-se aqui de um inventário qualificado. O poem avisa o destinatário - «Quero ensinar-te tudo o que aprendi e / o que descobri no vogar dos dias» - e mesmo numa adversativa para o destinatário- «Vais saber que as lágrimas / não caem só dos olhos» - mas também para o autor - «Andar pela vida não é fácil» - o ponto a atingir fica dentro do enunciado do possível: «saber que os homens podem ser / como as árvores». (Edição: Fólio Exemplar, Capa e Paginação: Ana Nunes) --

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por José do Carmo Francisco às 19:16



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