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Transporte Sentimental



Domingo, 21.09.14

o canibal das rabacinas

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O rapaz, o canibal das Rabacinas, vinha, como todos nós, no comboio descendente, um «intercidades» a ligar a Covilhã a Lisboa, numa tarde de chuva anunciada que afinal não se concretizou Tejo abaixo. O rapaz vestido de negro lia devagar o «Correio da Manhã» e não entrou em diálogo connosco nem sequer com o nosso interlocutor, apesar das sucessivas possibilidades surgidas na sequência das nossas conversas à volta do grande tema sempre presente na literatura e na sociedade portuguesa «a cidade e as serras». O mesmo é dizer a vida em Lisboa e na Beira Baixa. Chamei-lhe o canibal das Rabacinas porque quis escolher um nome para o sujeito da minha crónica mas na circunstância poderia muito bem ter sido o canibal de Sobral Fernando, da Foz do Cobrão ou dos Maxiais. Mas também poderia ser o canibal da Fróia, de São Pedro do Esteval ou do Perdigão. Tudo isto porque o rapaz se parecia muito com o Adolfo Luxúria Canibal. Mas não cantava nem dizia nada, era um canibal silencioso. Apenas o fato muito escuro e o cabelo demasiado comprido faziam lembrar o outro canibal. O comboio tornou-se um agradável ponto de encontro, houve histórias comuns que foram lembradas trinta anos depois, surgiu uma memória sobre as couves de Valhascos e o ponto alto foi a lembrança de um menino (hoje um reformado) que teve três mães no tempo em que não havia leite em pó para crianças. Mas o canibal das Rabacinas não se pronunciou, não comentou, não participou, ficou-se pelo silêncio, fechou-se na sua roupa preta, na sua pose negativa perante o interlocutor e perante o resto do povo do comboio descendente à beira do Rio Tejo numa tarde a anunciar chuva que afinal não se concretizou. --

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por José do Carmo Francisco às 09:47


1 comentário

De Joaquim do Nascimento a 29.09.2014 às 19:51

Belo texto sobre a incomunicação social, Poeta.
O Canibal terá roído cornos que lhe tenham provocado tamanha indigestão? Maranhos? É pior que cornos.
O Canibal de Rabacinas que a mim me parece retintamente gótico iria a sentir-se diminuído por viajar à antiga, comboio ronceiro à segunda, com tanto povo, Correio da Manhã à frente do nariz e Maria na algibeira para intercalar a faca e o alguidar!
Nunca se sabe, nem eu sou a Ágatha dos policiais de bolso, em comboios descendentes da Beira, com vampiros na capa. Se fosse no Doiro talvez eu lhe eu adivinhasse quem é o figuro, porque o Doiro é o meu Mundo, nos dias que todo o Mundo é meu.
Quer um conselho, Poeta?
Não perturbe a leitura do rapaz que qualquer dia vai amanhecer doutor, engenheiro ou arquitecto.
JN

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