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Transporte Sentimental



Sábado, 02.05.15

«o búzio de istambul» de joão rasteiro

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«Natureza e Cultura» – esta dupla inscrição pode ser uma das chaves para entrar neste livro de João Rasteiro (n.1965). O título está na página 63: «O binómio de Newton, dos silêncios que sufocam o tempo, das palavras de sangue cintilante, do poema de vida e morte, o binómio das aldeias ininterruptas é tão sublime e majestoso como a rosa, como o martírio do búzio de Istambul». Trata-se aqui de um mundo uno. É o poema que une as coisas mais diversas e opostas, sejam as águas em tumulto do Bósforo ou as águas calmas do Mondego: «Toda a memória é uma forma de solidão, a respiração, a margem das palavras. O eco.» Dito de outra maneira: «o poema atravessando dois mundos de ecos intangíveis / a força consagrada dos búzios florindo a sua órbita viva / advindo nos hortos perfumados dos jardins de Istambul». Se «Natureza e Cultura» pode ser a primeira inscrição do livro, a segunda será «Amor e Morte»: «quando em 1996, sob o vento de Outubro, antes que a noite se aproximasse, te procurava por entre os odores dos amieiros, porque o amor é forte como a morte, mais forte que a eternidade dos mortos – te procurava na pureza do linho e das mortalhas sagradas, pai». Voltando à dualidade «Natureza e Cultura», depois da homenagem a Camões («Junto às margens impassíveis dos rios da Babilónia / os salgueiros têm fólio espinhos hábeis de silêncios») o autor regressa à Natureza: «Agora que todo o campo, todos os animais, todas as aves, toda a terra, todos os amieiros me pertencem, regresso até ao fim do mundo» Mas já tinha viajado pela Cultura na primeira parte do livro. A sua biografia («ser bardo e sonhador é devorar o fogo sagrado, o correr das chuvas») envolve leituras de poetas como Camões, Fernando Pessoa, Fiama, Luiza Neto Jorge, Gastão Cruz, Ramos Rosa, Jorge de Sena, Miguel Torga, Eugénio de Andrade ou Mário Cesariny: «Deixa que chegue a ti o que não tem nome: o que é o fogo. / Tocaste a luz, a quietude da luz e inventaste a blasfémia / a respiração / retrocedeste em círculos / desceste ao pântano das madrugadas que se acolhem largadas sob as chuvas» O búzio de Istambul ouve-se à beira do Mondego, entre Coimbra e a Figueira da Foz. O mundo é uno: o poema junta de novo o que a geografia separou. (Editora: Palimage, Prefácio: Casimiro de Brito, Capa: Rogério Oliveira) --

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por José do Carmo Francisco às 10:57



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