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Transporte Sentimental



Sábado, 27.06.15

nuno costa santos e teresa belo ou uma certa memória do jogo do chinquilho

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Levi Condinho, natural do Bárrio (perto de Alcobaça e de São João da Ribeira) ouviu em Setembro de 1978 numa taberna de Turquel dois homens do campo dizerem que tinha sido complicado transportar a urna com o corpo de Ruy Belo. Eu não estava lá, não ouvi os dois homens mas, num certo sentido, percebo a frase: ele pesava muito porque levava consigo o peso da Terra. Não a Terra, o planeta Terra mas aquilo que cada um de nós faz da sua apropriação da Terra. Não o volume mas a densidade e a memória da Terra. Como no poema «O jogo do chinquilho»: «O adro o fim da tarde o jogo do chinquilho / o ruído das malhas os paulitos / o sol poente sobre si redondo como simples / malha atirada por alguém pelo espaço do dia / e prestes a cair no mar como nas tábuas / o gesto perdulário e impensado de jogar / a malha como quem num gesto joga a vida / as silhuetas hirtas dos que assistem / de boné ou barrete na cabeça e mãos nos bolsos / tudo se passa aqui ali há trinta e cinco anos / como se aqui ninguém houvesse envelhecido / nem sofrido ou morrido ou suportado / toda a imensa fome requerida para produzir um rico». Embora nascido em 1951 (Ruy Belo nasceu em 1933) posso dizer que os homens de boné e os velhos de barrete são os mesmos e o jogo do chinquilho também. Santa Catarina não é longe de São João da Ribeira, pelo meio ficam as Salinas de Rio Maior. É esta proximidade que me comove. Houve tempos em que passava em São João da Ribeira todas as segundas feiras: trabalhava em Santarém e ia almoçar como meu pai à minha terra. Agora as cervejas não saem dos poços dentro das cestas de verga, toda a gente tem frigorífico. Eu gostava mais de gasosas. A taberna do Ernesto é hoje um café moderno, o campo do Rio da Pedra é um pomar que felizmente dá pouca fruta. --

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por José do Carmo Francisco às 14:58


1 comentário

De Luis Eme a 27.06.2015 às 19:50

Também me lembro do meu pai refrescar cervejas no poço, dentro do balde com que se tirava a água...

Do jogo do chinquilho nem por isso, mas o poema de Ruy Belo tem lá tudo...

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