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Transporte Sentimental



Domingo, 15.06.14

novas leituras de 2009 - josé mário silva «luz indecisa»

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Camilo Castelo Branco escreveu um dia («Narcóticos») que «a poesia não tem presente: ou é esperança ou saudade». Neste seu segundo livro de poemas, José Mário Silva (n.1972, Paris) viaja também entre a saudade e a esperança. A luz indecisa do título do livro é a memória; seja dos rituais infantis («Jogávamos / à bola com pinhas, usávamos / cuspo para limpar o pó dos sapatos / ortopédicos, esfolávamos joelhos») seja das habitações: «As casas que habitámos ainda nos habitam». Quando não é memória, é nostalgia: «Aos 14 anos, o futuro era um território confuso / um país estrangeiro; não sabíamos como lá chegar». Para José Mário Silva a recordação nunca é apenas o «eu» fechado em si mesmo; incorpora o «outro». Pode ser um jogador de futebol como Maradona («um relâmpago azul atravessava, em ziguezague o longínquo relvado do estádio Azteca») ou um artista gráfico como Olímpio Ferreira: «Mesmo olhada de frente, a ausência / continua a ser cruel, o silêncio uma/ ignomínia. / Descemos à rua, bebemos / café, fingimos seguir em frente.» Ou ainda outro país: «Os corpos encostados à parede / talvez recordem paisagens brancas / um Inverno ucraniano com árvores / perdidas na neve». Quanto ao futuro pode ser um olhar («Os teus olhos são os meus – é o que toda a gente diz») ou uma formiga: «A minha filha acompanha a subida / heróica da formiga pela parede / branca, vira-se para mim, sorri.» Mais ao fundo do livro a luz do poema ilumina a cidade: «É um pequeno milagre esta claridade / Os telhados acendem-se como fornalhas / permanece vermelha uma parte do céu». (Editora: Oceanos, Design: Rogério Petinga, Capa: António Rosado) --

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por José do Carmo Francisco às 22:22



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