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Transporte Sentimental



Sábado, 25.02.17

«nos mares do fim do mundo» de bernardo santareno

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Bernardo Santareno (1920-1980) integrou a equipa de médicos da frota bacalhoeira portuguesa entre 1957 e 1959: «David Melgueiro», «Senhora do Mar» e «Gil Eannes» são os nomes dos navios nos quais embarcou. Acontece que tanto a peça «O Lugre» como a narrativa (em forma de testemunho) «Nos mares do fim do Mundo», livros editado em 1959 pela Editora Ática, vieram sobressaltar as visões oficiais da pesca do bacalhau. A oposição do regime ao seu trabalho de escritor foi ao ponto de o jornal «O Pescador» de Dezembro de 1959 omitir o nome deste médico-dramaturgo aquando da chegada do navio Gil Eannes a Leixões. Tratou-se de uma tentativa de morte civil mas sem resultado. Esta nova edição do livro de 1959 conta com dois textos inéditos «Responsabilidade» e «Rebelião», com fotografias novas e com a ficha de inscrição do médico no Grémio dos Armadores de Navios de Pesca do Bacalhau. Num livro de 238 páginas fixemos apenas duas notas. Na comparação entre as amizades no mar e na cidade, escreve o autor: «Que tristes, decepadas e pobres as nossas amizades de cidade: Ai, aqueles nossos cafés, cheios de olhos de abutre, de fumo envenenado pelas miragens do ópio!... O mar humaniza, equilibra, lava e redime…é um baptismo, um crisma: a gente nasce outra vez. E tudo começa: puros fortes, cheios de graça!» Na aproximação ao fascínio do mar pode ler-se: «o mar é puro, leal, generoso…cura todas as chagas, lava todas as manchas! Forte e invencível… O mar é imenso e eterno: é a voz e o olhar de Deus. É forte, invencível: destrói o ódio, o ciúme, a inveja… Só consente o amor.» O título do livro está na página 190: «Dantes, ainda há vinte ou trinta anos, nas aldeias piscatórias do norte, em redor de Ílhavo, quando os homens partiam para os mares da Terra Nova, as mulheres vestiam-se de luto rigoroso. E sepultavam tudo quanto fosse oiro ou prata ou metal luzente… Até a loiça, os pratos brancos onde o sol podia brilhar, até esses eram retirados da vida. E nunca mais, enquanto durava a campanha, a mulher casada dormia no leito conjugal; no quarto sim mas no chão, sobre farrapos de burel, aos pés da cama onde conhecera o amor do seu homem…agora lá longe, sobre as ondas do Oceano, nos mares do fim do mundo.» (Editora: E-Primatur, Prefácio: Álvaro Garrido, Editor responsável: Hugo Xavier, Apoio: Nuno Fonseca) --

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por José do Carmo Francisco às 11:00


1 comentário

De Francisco de Lancastre e Tavora a 10.05.2017 às 11:47

Caro José do Carmo, bom dia. Aproveito este belo texto de Bernardo Santareno, cuja Biblioteca Pública em Santarém - ou seja à qual foi dada o Seu nome -, tive a honra de visitar e de lá organizar uma exposição, este texto dizia eu sobre gente da terra de alguns meus avoengos em Ílhavo, para breve homenagem a alguém que sei que lhe era querido, o Baptista Bastos, que partiu ontem e que disse em entrevista de há dois anos à Renascença, esta frase muito positiva: "inscrevo-me e junto me ao coro dos que lutam contra as injustiças". Nessa entrevista de 15 minutos, aos 81 anos, disse que não por ser já velho, mas que acreditava que as religiões podiam fazer bem às pessoas. Podiam conduzir a algumas boas mudanças na sociedade. Também humildemente - com muitos erros pelo caminho - me reúno a esse coro. Sem ser menino de coro e de em criança não sei porquê, nunca ter gostado de sacristias em si mesmas. Do Batista Bastos li com enorme agrado Cavalo a Tinta da China. Um forte abraço deste seu amigo.

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