Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Transporte Sentimental



Domingo, 07.06.15

«negro marfim» de victor oliveira mateus

Image.jpg


Victor Oliveira Mateus mostra neste livro um homem «da» cidade mas também «na» cidade: «A cidade é este espaço onde os espectros não cabem e onde se corrigem os poemas da véspera com pedaços de uma memória resplandecente e de uma alegria sempre nova que não vendemos nem damos.» O próprio título do volume nasce de um poem na página 19 e na cidade: «um desses breves momentos onde eu, sem saber porquê, costumava guardar num dos bolsos o meu estojo de sementes – esse fiel e imperecível negro de marfim.» O livro mostra que o tempo que vivemos é o da catástrofe: «Logo agora que a catástrofe merecia ser a mais bem-sucedida ilustração deste tempo e desta praça». Hoje, o Mediterrâneo que foi berço de civilizações, é um lugar de morte: «Aguardou-o, bem como tudo o que vinha do continente fronteiro: o desnorte dos homens, a dor intraduzível das mulheres, pedaços de brinquedos já sem dono, bocadinhos de espelhos, rombas caixas de música, pássaros desasados, barcos naufragados com pedaços de vísceras na proa.» O poema é sempre a voz do poeta («as minhas dúvidas, as minhas crenças, as minhas verdades, tão provisórias e falíveis como todas as verdades»)que surge entre os espanto e a loucura, o outro nome da lucidez: «Esta é a minha loucura, aquela que defendo com unhas e dentes, ou seja, a minha lucidez, serena e persistente como na infância já se me oferecia.» Entre o homem que escreve e a cidade que não dorme, surge um cão: «Toda a noite o cão ladrou, ladrou. O eco entrava por mim adentro num misto de temor e raiva assassina. O arrastar da corrente aumentava também o sufoco e a impotência – minha e do cão. Quem andaria por entre as hortas?» No intervalo do precário da Vida e a ameaça da Morte, só o Amor pode resgatar: «o amor é uma entrega sem pagamentos nem recompensas, é um caminho de sentido único, uma viagem onde estamos sós e sem desculpa.» É como se Victor Oliveira Mateus tivesse entrado num pátio de Lisboa em 1900 e ouvisse o grito que Raul Brandão nunca esqueceu - «Se quer ser escritor, escreva sobre os pobres!». Ora a pobreza é também a fragilidade das palavras: «A palavra traz consigo uma ganga que atrai, que atrai e amedronta. Há nela algo de uma seiva originária, de raízes, de raízes adulteradas pelo uso, pelos instrumentos, pelas máscaras com que no tempo enganando-as nos enganamos. É uma ponte.» (Editora: Labirinto, Prefácio: Miguel Real, Posfácio: Ronaldo Cagiano, Capa: Nuno Fernandes) --

Autoria e outros dados (tags, etc)

por José do Carmo Francisco às 09:44



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Junho 2015

D S T Q Q S S
123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
282930





Visitas