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Transporte Sentimental



Sábado, 01.10.16

«nebulosa de afectos» de josé correia tavares

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José Correia Tavares (n.1938) estreou-se em 1961 com «Dádiva» e traça neste seu recente livro uma radiografia de si, do País e do Mundo. Para isso usa o método da quadra: «E, no espaço tão restrito / Duma quadra popular / Fui daqui ao infinito / Voltando para ficar». O ponto de partida é o poeta, ele mesmo, em quatro quadras: «Tenho da palavra o dom / E, de ninguém dependente / Quando falo neste tom / Incomodo muita gente»// «Poeta sempre contrário / Aos rituais em redor / De quadras trago um rosário / Para rezar ao amor»// «Anda o livro por aí / Tanta gente já o leu / Seus poemas escrevi / E agora já não é meu»// «Aguentei até agora / Bem ou mal ainda vivo / Não pensem que vou embora / Sem vos dar um correctivo». O tíitulo aparece justificado na página 104: «Nebulosa dos afectos / Sem espaço nem idade / É de alguns menos correctos / Que tenho maior saudade» ou na página 35: «Da mais nebulosa teia / Até ao ponto final / Sou um elo na cadeia / Do homem intemporal». A carpintaria do livro é clara: «Rimas com destinatário /Agora já não subscrevo / Pois no compasso binário / Mesmo credor, sempre devo». Olhando para trás, o poeta assinala: «Só nos meus livros fui eu /Naquilo que neles disse /Tudo mais aconteceu / Fingindo – grande chatice». A voz do Poeta circula entre Portugal e o Mundo. Portugal pode ser cidade: «Porque tiraram as linhas / Dos eléctricos na rua / Sem o recato que tinhas / À marquise tu vens nua». O Mundo pode ser o lugar de quem voltou do Inferno: «Quando caí nos infernos / Não pensei que me salvasse / Para pôr nestes cadernos / Vosso rosto e minha face». Ou então a geografia entre América do Sul e Ásia: «Dos Andes à Indochina / Mesmo aqui, na Terra inteira / Só a graça feminina / Floresce de igual maneira». Ou por fim a fome: «Eu não posso indiferente / Ficar nem mais um segundo / Sabendo que tanta gente / Morre à fome neste mundo». Provisória embora, surge uma conclusão na página 62: «Eu em toda a minha vida / Vos digo perto da meta / Desde o tiro de partida / Nada mais fui que poeta». E um olhar sobre a morte: «Embora ao longo da vida /Tenha tido alguns amores / Bandeira, na despedida / Só quero a dos Escritores». É impossível resumir um livro de 143 páginas com quatro quadras em cada página; fica apesar de tudo um convite á leitura. (Editora: ADAB/Poesia, Prefácio: Annabela Rita, Apoio: Câmara Municipal de Castelo Branco, Capa: António Pedro, Imagem «Caçador igualmente presa» – Universidade de Heidelberg) --

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por José do Carmo Francisco às 15:33



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