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Transporte Sentimental



Segunda-feira, 07.12.15

«mulher inclinada com cântaro» de jaime rocha

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Neste livro de 24 páginas, breve mas luminoso e intenso, a Nazaré está presente em força: pelo autor (Jaime Rocha), pela editora (Volta d´mar) e pela citação inicial de Raul Brandão, autor do livro «Os pescadores» onde surgem páginas de antologia sobre a Nazaré e as suas gentes. Os poemas recordam um «assombro», não um assombro qualquer mas este assombro povoado por uma mulher («A mulher despeja as tripas de peixe no mar»), por um cão («O cão não a deixa») e por um homem que faz perguntas: «e se a eternidade fosse assim: / um cacho de uvas no nevoeiro?» O «assombro» da citação inicial de Raul Brandão é o outro nome da morte: «Mas agora é o tempo da morte.» E trata-se de uma morte concreta embora o poema não refira o nome daquele que está ausente, «alguém que nunca chegou, alguém comido pelos crustáceos.» Depois da morte, a mulher e o cão esperam o regresso do corpo: «ambos sabem que um náufrago vive no coração do mar / à espera que as correntes e as rochas / o devolvam à terra». O poema-chave do livro é o da página 18: «A mulher inclina-se então sobre / o cântaro, tapada por um lenço / e bebe a água, toda a água, deixando / os lábios colados ao barro.» Aqui a morte do náufrago é a oposição à vida da água; essa oscilação entre a morte e a vida fica expressa no poema da página 20: «Quando o náufrago aparece / na rebentação, a fonte seca e todos / os cântaros racham com o sopro da água.» A narrativa poética chega ao fim - «Nesse dia, tudo o que era vivo parou / a luz, a água, o vento./ Só a mulher / com o cântaro conseguiu aproximar-se / da praia e chorar.» A praia fica vazia porque «as mulheres desapareceram» e apenas resta o livro como memória desse tempo: «O que se segue fica escrito nas folhas de um livro.» Este livro de 24 páginas, breve mas luminoso e intenso. (Editora: Volta d´mar, Foto/capa: Sylviane Lehuby, Produção: Luís Paulo Meireles) --

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por José do Carmo Francisco às 21:48


1 comentário

De A Vertigem a 07.12.2015 às 21:52

"Os cântaros racham com o sopro da água" que verso... Que belo tudo isso escrito, acima!...

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